O autor Luis Milman em “Negacionismo: gênese e desenvolvimento do extermínio conceitual” aborda a gênese do trabalho dos negacionistas - por volta do início da década de 50 - e seu posterior desenvolvimento. O pioneiro foi Paul Rassinier do qual gerou outros autores como Robert Faurrison, Ernst Zundel, Arthur Butz, Jurgen Graff e Ahmed Rami. O historiador David Irving também tem sido incluído nesta lista. A maior parte dessa relação de nomes já esteve envolvida em diversos processos, que vão da calunia, racismo, injuria até a falsificação pura e simples de documentos para tentar embasar suas idéias. Em torno desses nomes ocorreu a construção das bases atuais da escola de postura negacionista - ou revisionista. Rassinier é o autor do primeiro livro desta escola; é portanto, um dos personagens chaves da mesma. O autor trata desta figura longamente e até certo ponto, densamente. Todavia não é nossa pretensão essa riqueza de detalhes informacionais. Sobre Faurisson, é válido ressaltar que ele “entra em cena” dez anos depois da morte de Rassinier tornando-se assim, o nome de maior expressão da postura a qual estamos tratando. David Irving, Arthur Butz e Roger Garaudy formam o grupo, juntamente com Faurisson, dos principais protagonistas da corrente mistificatória da qual Milman trata mas que também não vale ser aqui esmiuçada.
Milman afirma que o movimento negacionista e revisionista começa a partir do início dos anos 1950 e está intrinsecamente ligado ao anti-semitismo. Essas idéias de revisão da história bem como a negação do Holocausto passa, necessariamente, pelos adeptos do anti-semitismo, principalmente na Europa e nos EUA. Discutir o negacionismo é, assim, discutir o anti-semitismo. Para o autor, os negadores do Holocausto enquadram-se pela audácia de investirem na supressão de fatos relativamente recentes. Para isso, eles contam com uma metodologia cenográfica e aparentemente elaborada. Assim, Milman afirma que o Revisionismo é uma forma de expressão particularmente assustadora da naturalidade com que convivemos com o relativismo, o verbalismo vago e com uma demagogia pseudocientífica e nos mostra que idéias como estas ainda são recorrentes em nossa sociedade e muito presente em nossas vidas, uma vez que uma das principais características dos revisionistas ou neonazistas é acreditar que os crimes por eles cometidos foram necessários e fundamentais.
BIBLIOGRAFIA
MILMAN, Luis. “Negacionismo: gênese e desenvolvimento do extermínio conceitual.” In.: MILMAN, Luis & VÍZENTINI, Paulo Fagundes (org.). “Neonazismo, negacionismo e extremismo político.” Porto Alegre: UFRGS, 2000, pp. 115-154.
KRAUSE-VILMAR, D. “A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política” In: MILMAN, L.,VIZENTINI P. “Neonazismo, negacionismo e extremismo político”. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2000.
domingo, 22 de junho de 2008
domingo, 15 de junho de 2008
Texto 10. KRAUSE-VILMAR, Díetfrid. A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política.
O autor Díetfrid Krause-Vilmar em “A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política” aponta que a negação pública dos crimes nazistas – posteriormente chamada de Revisionismo, pois seus adeptos pretendiam revisar a história - não visava, de início, negar a matança em massa dos judeus, limitando-se a relativizar as declarações das testemunhas da época. Nas décadas seguintes, os pontos negados evoluíram respectivamente para : o número de pessoas assassinadas, as técnicas usadas no extermínio, documentos e figuras históricas que foram apresentados, os locais dos campos de morte, e a existência das câmaras de gás. De início, as confrontações jurídicas resultantes destas alegações foram bem recebidas pelos revisionistas, devido ao impacto que causavam na opinião pública,entretanto posteriormente passaram a ser evitadas, devido às condenações dos negadores.
Segundo o autor, existem diversos níveis de argumentação daqueles que negam a ocorrência dos extermínios em Auschwitz. Há alguns de refutação simples e fácil ao lado de hipóteses técnicas e químicas complexas.Embora tentem se passar por pesquisadores sérios, o método que utilizam não corresponde aos princípios científicos, gerando algumas objeções metodológicas, de acordo com o autor. A primeira objeção diz respeito ao tratamento tendencioso dado aos testemunhos das vítimas. A segunda é ligada à pretensa cientificidade com a qual a negação é defendida. A primeira vista, tem-se a impressão de pura ciência. Entretanto, visto mais de perto, o detalhismo se torna inverdade. A terceira objeção é feita em relação à descontextualização de documentos e fatos históricos. O contexto histórico-político é sempre excluído de quaisquer documentos e estudos. Já a quarta objeção surge do fato de que os revisionistas focam sua negação nos fatos ocorridos no campo de Auschwitz.
O autor defende ainda que o impacto causado pelos revisionistas é difícil de se avaliar e certamente não pode ser medido. Entretanto, uma coisa fica clara quando nos ocupamos mais de perto desses autores: seus objetivos não são genuinamente histórico- científicos. A linguagem usada pelos revisionistas é altamente marcada pelo ódio e pelo desprezo e repleta de expressões anti-semitas, contrapondo a linguagem sóbria e objetiva que deveria ser usada em trabalhos acadêmicos. Ou seja, uma linguagem altamente desaconselhada para um trabalho dessa importância.
Para finalizar, o autor aponta que mesmo com tantas provas da existência do Holocausto - como por exemplo os complexos de fontes conhecidos sobre os assassinatos cometidos nos campos como Auschwitz, Belzec e Treblinka e o fato de que existem fichas de trabalhadores civis em Auschwitz, documentos internos da SS, relatos de fugitivos dos campos e dados visíveis sobre a imensa capacidade dos crematórios de Birkenau – os negacionistas e revisionistas continuam seus “estudos”. Ele defende que temos a obrigação de refutar tal tolice, caso a mesma venha a obter alguma repercussão junto ao público e que devemos fazê-lo sempre com base em argumentos. Até porque os que negam os crimes em massa cometidos pelo nacional-socialismo, mesmo que sejam poucos, apresentam também “provas”, mesmo que sejam falsas. Então nesse sentido o autor diz que “Nada é mais cruel do que negar a perseguição, a humilhação e o sofrimento de um indivíduo ou de um grupo. Por isso, essa negação supera em crueldade a própria perseguição” (LISPTADT, 1994, p. 48 apud KRAUSE-VILMAR, 2000, p. 3)
BIBLIOGRAFIA
KRAUSE-VILMAR, D. “A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política” In: MILMAN, L.,VIZENTINI P. “Neonazismo, negacionismo e extremismo político”. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2000.
BAUMAN, Zygmunt. “Modernidade e Holocausto” . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. pp. 106-141.
Segundo o autor, existem diversos níveis de argumentação daqueles que negam a ocorrência dos extermínios em Auschwitz. Há alguns de refutação simples e fácil ao lado de hipóteses técnicas e químicas complexas.Embora tentem se passar por pesquisadores sérios, o método que utilizam não corresponde aos princípios científicos, gerando algumas objeções metodológicas, de acordo com o autor. A primeira objeção diz respeito ao tratamento tendencioso dado aos testemunhos das vítimas. A segunda é ligada à pretensa cientificidade com a qual a negação é defendida. A primeira vista, tem-se a impressão de pura ciência. Entretanto, visto mais de perto, o detalhismo se torna inverdade. A terceira objeção é feita em relação à descontextualização de documentos e fatos históricos. O contexto histórico-político é sempre excluído de quaisquer documentos e estudos. Já a quarta objeção surge do fato de que os revisionistas focam sua negação nos fatos ocorridos no campo de Auschwitz.
O autor defende ainda que o impacto causado pelos revisionistas é difícil de se avaliar e certamente não pode ser medido. Entretanto, uma coisa fica clara quando nos ocupamos mais de perto desses autores: seus objetivos não são genuinamente histórico- científicos. A linguagem usada pelos revisionistas é altamente marcada pelo ódio e pelo desprezo e repleta de expressões anti-semitas, contrapondo a linguagem sóbria e objetiva que deveria ser usada em trabalhos acadêmicos. Ou seja, uma linguagem altamente desaconselhada para um trabalho dessa importância.
Para finalizar, o autor aponta que mesmo com tantas provas da existência do Holocausto - como por exemplo os complexos de fontes conhecidos sobre os assassinatos cometidos nos campos como Auschwitz, Belzec e Treblinka e o fato de que existem fichas de trabalhadores civis em Auschwitz, documentos internos da SS, relatos de fugitivos dos campos e dados visíveis sobre a imensa capacidade dos crematórios de Birkenau – os negacionistas e revisionistas continuam seus “estudos”. Ele defende que temos a obrigação de refutar tal tolice, caso a mesma venha a obter alguma repercussão junto ao público e que devemos fazê-lo sempre com base em argumentos. Até porque os que negam os crimes em massa cometidos pelo nacional-socialismo, mesmo que sejam poucos, apresentam também “provas”, mesmo que sejam falsas. Então nesse sentido o autor diz que “Nada é mais cruel do que negar a perseguição, a humilhação e o sofrimento de um indivíduo ou de um grupo. Por isso, essa negação supera em crueldade a própria perseguição” (LISPTADT, 1994, p. 48 apud KRAUSE-VILMAR, 2000, p. 3)
BIBLIOGRAFIA
KRAUSE-VILMAR, D. “A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política” In: MILMAN, L.,VIZENTINI P. “Neonazismo, negacionismo e extremismo político”. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2000.
BAUMAN, Zygmunt. “Modernidade e Holocausto” . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. pp. 106-141.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Dicas de filmes: A outra história americana
Trata- se de um filme espetacular, com direção afiada, um roteiro que sai completamente dos padrões de Hollywood e uma magnífica interpretação de Edward Norton.
O filme conta a história de Derek Vinyard (Norton), filho de um bombeiro, que morava em Venice Beach, um lugar calmo e tranqüilo até então. Porém, quando um incêndio num bairro negro longíncuo, conhecido pelo tráfico de drogas, fez com que Vinyard fosse assassinado em pleno serviço por um traficante negro, a vida de Derek e sua familia muda radicalmente. O fato traumatizante fez com que ele se empenhasse ainda mais nos ideais racistas do pai, e acaba se tornando um skinhead ativista.
Um fanático nazista, Cameron Alexander, orienta Derek, que forma uma gangue de skinheads com o intuito de "limpar" seu bairro. Certo dia um grupo de negros tenta roubar seu carro, e Derek mata dois dos bandidos. Na cadeia, onde fica por três anos, se depara com a idéia dos próprios neo-nazistas do presídio, que dizem que é essencial alguma tolerância e algum tipo de parceria entre as raças em nome da própria sobrevivência.
A situação piora e ele se vê em permanente conflito ao ser agredido pelos seus próprios pares - brancos igualmente violentos e racistas - e ao ver em um negro o único interno a lhe nutrir alguma afeição.
Em meio a tudo isso, Derek se culpa pelo fato de haver atraído para o buraco que ele próprio cavou para o irmão mais novo, Danny (Edward Furlong), um jovem que luta contra seus próprios sentimentos para seguir o exemplo de seu irmão.
O final é trágico, o filme contém cenas de muita violência, mas a sensação pós-créditos é incrivelmente positiva, diante da idéia de que o homem, por mais irrecuperável e corrompido que possa parecer, ainda é capaz de resgatar a dignidade que guarda adormecida ou aprisionada em seu interior.
O filme conta a história de Derek Vinyard (Norton), filho de um bombeiro, que morava em Venice Beach, um lugar calmo e tranqüilo até então. Porém, quando um incêndio num bairro negro longíncuo, conhecido pelo tráfico de drogas, fez com que Vinyard fosse assassinado em pleno serviço por um traficante negro, a vida de Derek e sua familia muda radicalmente. O fato traumatizante fez com que ele se empenhasse ainda mais nos ideais racistas do pai, e acaba se tornando um skinhead ativista.
Um fanático nazista, Cameron Alexander, orienta Derek, que forma uma gangue de skinheads com o intuito de "limpar" seu bairro. Certo dia um grupo de negros tenta roubar seu carro, e Derek mata dois dos bandidos. Na cadeia, onde fica por três anos, se depara com a idéia dos próprios neo-nazistas do presídio, que dizem que é essencial alguma tolerância e algum tipo de parceria entre as raças em nome da própria sobrevivência.
A situação piora e ele se vê em permanente conflito ao ser agredido pelos seus próprios pares - brancos igualmente violentos e racistas - e ao ver em um negro o único interno a lhe nutrir alguma afeição.
Em meio a tudo isso, Derek se culpa pelo fato de haver atraído para o buraco que ele próprio cavou para o irmão mais novo, Danny (Edward Furlong), um jovem que luta contra seus próprios sentimentos para seguir o exemplo de seu irmão.
O final é trágico, o filme contém cenas de muita violência, mas a sensação pós-créditos é incrivelmente positiva, diante da idéia de que o homem, por mais irrecuperável e corrompido que possa parecer, ainda é capaz de resgatar a dignidade que guarda adormecida ou aprisionada em seu interior.
FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Edição integral; tradução de Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007.
"Espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha a ser um grande apoio e um grande conforto para mim."
Anne Frank, 12 de junho de 1942.
É dessa forma que Anne Frank inicia seu famoso diário que escreve enquanto está escondida, na Holanda ocupada. Este diário transmite as angústias e as emoções de uma criança perante o terror que a cerca, sob a forma de cartas a uma amiga imaginária a que chamou de "Kitty". Progressivamente vamos sendo envolvidos na sua angústia e nos problemas de uma vida partilhada no pequeno anexo por oito pessoas. Ela retrata a crueldade e a frieza com que os judeus eram tratados na época, demonstrando uma face repugnante da raça humana, assim como as vivências que todas as adolescentes passam: os seus medos, as suas novas experiências, a vontade de se exprimirem perante ao mundo, a vontade incontrolável de viver e de aproveitar a vida ao máximo...Assim, o diário se tornou um dos relatos mais impressionantes das atrocidades e horrores cometidos contra os judeus durante a segunda guerra mundial e se converteu em um dos livros mais lidos do mundo.
CONHECENDO ANNE FRANK
Antes de começar a analisar especificamente o livro, farei um breve resumo sobre quem foi Anne Frank e sobre sua história. Anne Frank nasceu em 12 de junho de 1929 em Frankfurt, na Alemanha. Quando em 1933 o partido nazista de Hitler chega ao poder, os pais de Anne, Edith e Otto, que eram judeus, percebem o perigo em continuar na Alemanha, onde o sentimento anti- semita era cada vez mais forte, e decidem fugir para a Holanda, no mesmo ano. Porém, em 1940 a Alemanha ocupa o país e em 1942 começam as deportações para os campos de concentração. A família então esconde-se na casa de trás do edifício onde funciona a empresa de Otto Frank sendo este o lugar que Anne escreverá seu importante diário. – “Como esconderijo, a casa de trás é ideal;ainda que seja úmida e esta toda inclinada, estou segura de que em toda Amsterdã, e talvez em toda Holanda, não há outro esconderijo tão confortável como o que temos instalado aqui”, - é assim que Anne Frank descreve o lugar onde eles permanecerão durante 2 anos até serem descobertos, em agosto de 1944, quando serão presos e deportados para o campo de Westerbork. Depois são transportados para Auschwitz e em outubro de 1944 a levam para Bergen- Belsen, juntamente com sua irmã, separando-as dos pais. Em 1945, nove meses após a sua deportação, Anne Frank morre de tifo em Bergen-Belsen. A irmã, Margot, tinha falecido também vítima do tifo e da subnutrição dias antes de Anne. Sua morte aconteceu duas semanas antes de o campo ser libertado. Dos oito habitantes do Anexo, o único sobrevivente após a guerra foi Otto, pai de Anne.
O DIÁRIO
Anne começou a escrever regularmente no seu diário a partir de 14 de junho de 1942. Em princípio, o tema era a Holanda ocupada pelos nazistas, que tornavam a situação dos judeus cada vez mais insuportável. Ela conta como, após maio de 1940, o sofrimento dos judeus se intensificou e cita diversas medidas excludentes que foram adotadas contra eles, como o fato de que tinham de usar, de uma maneira bem visível, uma estrela amarela para os identificar, ou o fato de não poderem andar de bonde, dirigir automóveis, serem obrigados a se recolher as 8 da noite, etc. Em muitas passagens do livro Anne expressa sua angústia com a situação dos judeus na Holanda e no mundo, narrando de forma aflita os momentos em que vê eles sendo levados às dúzias pela Gestapo, sem um mínimo de decência, amontoados em vagões de gado e enviados para Westerbork. Assim, Anne descreveu seu cotidiano com pormenores: a preocupação diária com a possível falta de comida e em certos momentos até mesmo a fome, os absurdos da guerra, o horror de serem descobertos e o entusiasmo com que recebiam notícias vindas do “mundo real”, como no momento em que o Sr. Vaan Daan – um dos outros moradores do esconderijo – diz que os ingleses desembarcaram na Tunísia, Argélia, Casablanca e Oran e que a cidade russa de Stalingrado, há três meses se defendendo, ainda não caiu nas mãos dos alemães. Esses são momentos importantes para Anne, que se enche de otimismo e esperança em relação a guerra. – “Agora estou ficando realmente esperançosa. Finalmente as coisas vão bem, muito bem mesmo! Houve um atentado contra a vida de Hitler, e desta vez não foi ato de judeus comunistas ou capitalistas ingleses; foi um orgulhoso general alemão, e – o principal – ele é conde e bastante jovem. A Divina Providência salvou a vida do Führer, e infelizmente ele conseguiu escapar com apenas alguns arranhões e queimaduras. Alguns generais e oficiais que estavam com ele ficaram feridos ou morreram. O principal culpado foi fuzilado. De qualquer modo, essa é uma prova de que existem muitos oficiais e generais que estão fartos da guerra e gostariam de ver Hitler despencar num abismo sem fundo”, diz Anne em certo momento do livro.
Outra personagem importante do livro, Miep Gies, que foi uma das pessoas que mais ajudou os Frank nesta época, lembra que com freqüência visitava os clandestinos, levando notícias e conforto: "Eles não podiam fazer barulho para não serem descobertos, o que significava não puxar a descarga no banheiro, andar descalço, ficar sentado..." disse Gies, tempos após o fim da guerra e da publicação do diário.
Outra questão muito importante que Anne aborda em todo livro é a relação com sua família e com os outros moradores do esconderijo. Muitas vezes ela se queixa da maneira como a família a trata, pois esta acha que ela sempre é infantil e encrenqueira. Os conflitos com a Sra. Vaan Daan e com o Sr. Dussel – o ultimo morador a chegar ao anexo – também são retratados. Ela também conta em algumas linhas o abrochar de sua vida sexual, onde ela passa a ser moça e as mudanças de sentimento por Peter – o filho do casal Vaan Daan – de quem ela não gostava muito no começo, mas muda de opinião, passando a ver nele uma companhia agradável e estimulante. Assim, Anne fala de todos os seus segredos e sentimentos, como a admiração pelo pai, a indiferença com a mãe, os conflitos constantes com o Sr. Dussel, por este ser seu colega de quarto e tenta expressar o que significa estar presa e não poder sair, não poder olhar pelas janelas, não poder fazer barulho, não poder falar alto, comer sempre as mesmas coisas todos os dias, não ter o que fazer além de, praticamente, estudar e ajudar nos serviços domésticos do anexo - tudo para poupar a vida. Dia após dia, enfrentava solidão, tédio, ansiedade, medo e ainda o pessimismo de alguns escondidos. Contudo, além dos seus temores, a menina também conta os seus maiores desejos e sonhos. Apesar das dificuldades, procurava estar sempre confiante de que tudo daria certo. Sempre esteve orgulhosa de ser judia e acreditava muito que Deus estava protegendo eles do perigo, o tempo todo. E, nos momentos de maior aflição - como aconteceu em uma noite em que o anexo foi invadido por ladrões, a polícia chegou logo depois do ocorrido para revistar o local e, então, o anexo quase foi descoberto -, Anne parecia disposta a encarar o pior. Assim, Anne concentra-se sobre o pequeno espaço em que a sua vida e a de seus companheiros se move e procura não só desabafar a sua revolta de adolescente, de judia expulsa da comunidade dos homens, de vítima de uma guerra impiedosa, mas, também, encontrar as explicações e as interpretações de tudo isto.
CONCLUSÃO
Ao meu ver, o livro serve como uma alerta à humanidade, mostrando-nos os horrores da guerra e atrocidades que não devemos esquecer jamais. Mas por ter sido escrito por uma criança, por vermos a guerra sob um ponto de vista infantil, todos os absurdos causados pela política racista de Hitler acabam ganhando um tom comovente e poético. As vezes parece difícil acreditar que um texto tão íntimo e pessoal, como o diário de uma adolescente, tenha se tornado um dos principais documentos sobre o Holocausto. Assim, Anne Frank revestiu o Holocausto de uma face tangível e real, de uma dimensão humana com a qual é possível identificar- se, apesar da dificuldade em lidar com a realidade e o horror da tragédia.
CONTEXTO HISTÓRICO
O Diário de Anne Frank é escrito durante a segunda guerra mundial, tratando especificamente da perseguição da Alemanha de Hitler aos judeus. A partir de 1930, o movimento nazista de Adolf Hitler cresceu, aproveitando-se do descontentamento popular com as crises econômica e política. O Partido Nacional-Socialista (NSDAP) era antidemocrático, anti-semita e de um nacionalismo exaltado. Nomeado chanceler do Reich em 30 de janeiro de 1933, Hitler, que considerava o cargo apenas um passo para a tomada do poder absoluto, começou imediatamente a montar um sistema ditatorial. Desfez-se rapidamente dos aliados que permitiram sua ascensão, reservando-se plenos poderes. Através de uma lei aprovada pelos partidos burgueses, proibiu todas as agrupações políticas, com exceção do seu NSDAP. A partir de então, qualquer tentativa de resistência era brutalmente sufocada. O regime perseguia impiedosamente não só adversários políticos – a começar por comunistas e social-democratas –, como todas as pessoas que não eram do seu agrado. Milhares foram presas e, sem qualquer processo judicial, internadas em campos de concentração construídos da noite para o dia. Mal tomara o poder, o regime começou a pôr em prática seu programa anti-semita. Passo a passo, os judeus foram despidos de seus direitos individuais e civis, proibidos de exercer a profissão, limitados em seu direito de ir e vir, expulsos de universidades, agredidos, forçados a entregar ou vender empresas e propriedades. Quem podia, tentava fugir para o exterior para escapar das expoliações, injustiças e vexações. A perseguição política e a ausência de liberdade de expressão e informação levaram milhares de pessoas a abandonar o país. E é nesse contexto de horrores, de medo e de perseguições, que Anne Frank escreve seu diário, que se tornou um manifesto para que não esqueçamos essa época tão triste e absurda da história da humanidade.
BIBLIOGRAFIA
FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Edição integral; tradução de Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007.
MÜLLER, Melissa. Anne Frank – Uma biografia. Editora Record, 2000.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914 – 1991. Companhia das Letras, 2001.
Anne Frank, 12 de junho de 1942.
É dessa forma que Anne Frank inicia seu famoso diário que escreve enquanto está escondida, na Holanda ocupada. Este diário transmite as angústias e as emoções de uma criança perante o terror que a cerca, sob a forma de cartas a uma amiga imaginária a que chamou de "Kitty". Progressivamente vamos sendo envolvidos na sua angústia e nos problemas de uma vida partilhada no pequeno anexo por oito pessoas. Ela retrata a crueldade e a frieza com que os judeus eram tratados na época, demonstrando uma face repugnante da raça humana, assim como as vivências que todas as adolescentes passam: os seus medos, as suas novas experiências, a vontade de se exprimirem perante ao mundo, a vontade incontrolável de viver e de aproveitar a vida ao máximo...Assim, o diário se tornou um dos relatos mais impressionantes das atrocidades e horrores cometidos contra os judeus durante a segunda guerra mundial e se converteu em um dos livros mais lidos do mundo.
CONHECENDO ANNE FRANK
Antes de começar a analisar especificamente o livro, farei um breve resumo sobre quem foi Anne Frank e sobre sua história. Anne Frank nasceu em 12 de junho de 1929 em Frankfurt, na Alemanha. Quando em 1933 o partido nazista de Hitler chega ao poder, os pais de Anne, Edith e Otto, que eram judeus, percebem o perigo em continuar na Alemanha, onde o sentimento anti- semita era cada vez mais forte, e decidem fugir para a Holanda, no mesmo ano. Porém, em 1940 a Alemanha ocupa o país e em 1942 começam as deportações para os campos de concentração. A família então esconde-se na casa de trás do edifício onde funciona a empresa de Otto Frank sendo este o lugar que Anne escreverá seu importante diário. – “Como esconderijo, a casa de trás é ideal;ainda que seja úmida e esta toda inclinada, estou segura de que em toda Amsterdã, e talvez em toda Holanda, não há outro esconderijo tão confortável como o que temos instalado aqui”, - é assim que Anne Frank descreve o lugar onde eles permanecerão durante 2 anos até serem descobertos, em agosto de 1944, quando serão presos e deportados para o campo de Westerbork. Depois são transportados para Auschwitz e em outubro de 1944 a levam para Bergen- Belsen, juntamente com sua irmã, separando-as dos pais. Em 1945, nove meses após a sua deportação, Anne Frank morre de tifo em Bergen-Belsen. A irmã, Margot, tinha falecido também vítima do tifo e da subnutrição dias antes de Anne. Sua morte aconteceu duas semanas antes de o campo ser libertado. Dos oito habitantes do Anexo, o único sobrevivente após a guerra foi Otto, pai de Anne.
O DIÁRIO
Anne começou a escrever regularmente no seu diário a partir de 14 de junho de 1942. Em princípio, o tema era a Holanda ocupada pelos nazistas, que tornavam a situação dos judeus cada vez mais insuportável. Ela conta como, após maio de 1940, o sofrimento dos judeus se intensificou e cita diversas medidas excludentes que foram adotadas contra eles, como o fato de que tinham de usar, de uma maneira bem visível, uma estrela amarela para os identificar, ou o fato de não poderem andar de bonde, dirigir automóveis, serem obrigados a se recolher as 8 da noite, etc. Em muitas passagens do livro Anne expressa sua angústia com a situação dos judeus na Holanda e no mundo, narrando de forma aflita os momentos em que vê eles sendo levados às dúzias pela Gestapo, sem um mínimo de decência, amontoados em vagões de gado e enviados para Westerbork. Assim, Anne descreveu seu cotidiano com pormenores: a preocupação diária com a possível falta de comida e em certos momentos até mesmo a fome, os absurdos da guerra, o horror de serem descobertos e o entusiasmo com que recebiam notícias vindas do “mundo real”, como no momento em que o Sr. Vaan Daan – um dos outros moradores do esconderijo – diz que os ingleses desembarcaram na Tunísia, Argélia, Casablanca e Oran e que a cidade russa de Stalingrado, há três meses se defendendo, ainda não caiu nas mãos dos alemães. Esses são momentos importantes para Anne, que se enche de otimismo e esperança em relação a guerra. – “Agora estou ficando realmente esperançosa. Finalmente as coisas vão bem, muito bem mesmo! Houve um atentado contra a vida de Hitler, e desta vez não foi ato de judeus comunistas ou capitalistas ingleses; foi um orgulhoso general alemão, e – o principal – ele é conde e bastante jovem. A Divina Providência salvou a vida do Führer, e infelizmente ele conseguiu escapar com apenas alguns arranhões e queimaduras. Alguns generais e oficiais que estavam com ele ficaram feridos ou morreram. O principal culpado foi fuzilado. De qualquer modo, essa é uma prova de que existem muitos oficiais e generais que estão fartos da guerra e gostariam de ver Hitler despencar num abismo sem fundo”, diz Anne em certo momento do livro.
Outra personagem importante do livro, Miep Gies, que foi uma das pessoas que mais ajudou os Frank nesta época, lembra que com freqüência visitava os clandestinos, levando notícias e conforto: "Eles não podiam fazer barulho para não serem descobertos, o que significava não puxar a descarga no banheiro, andar descalço, ficar sentado..." disse Gies, tempos após o fim da guerra e da publicação do diário.
Outra questão muito importante que Anne aborda em todo livro é a relação com sua família e com os outros moradores do esconderijo. Muitas vezes ela se queixa da maneira como a família a trata, pois esta acha que ela sempre é infantil e encrenqueira. Os conflitos com a Sra. Vaan Daan e com o Sr. Dussel – o ultimo morador a chegar ao anexo – também são retratados. Ela também conta em algumas linhas o abrochar de sua vida sexual, onde ela passa a ser moça e as mudanças de sentimento por Peter – o filho do casal Vaan Daan – de quem ela não gostava muito no começo, mas muda de opinião, passando a ver nele uma companhia agradável e estimulante. Assim, Anne fala de todos os seus segredos e sentimentos, como a admiração pelo pai, a indiferença com a mãe, os conflitos constantes com o Sr. Dussel, por este ser seu colega de quarto e tenta expressar o que significa estar presa e não poder sair, não poder olhar pelas janelas, não poder fazer barulho, não poder falar alto, comer sempre as mesmas coisas todos os dias, não ter o que fazer além de, praticamente, estudar e ajudar nos serviços domésticos do anexo - tudo para poupar a vida. Dia após dia, enfrentava solidão, tédio, ansiedade, medo e ainda o pessimismo de alguns escondidos. Contudo, além dos seus temores, a menina também conta os seus maiores desejos e sonhos. Apesar das dificuldades, procurava estar sempre confiante de que tudo daria certo. Sempre esteve orgulhosa de ser judia e acreditava muito que Deus estava protegendo eles do perigo, o tempo todo. E, nos momentos de maior aflição - como aconteceu em uma noite em que o anexo foi invadido por ladrões, a polícia chegou logo depois do ocorrido para revistar o local e, então, o anexo quase foi descoberto -, Anne parecia disposta a encarar o pior. Assim, Anne concentra-se sobre o pequeno espaço em que a sua vida e a de seus companheiros se move e procura não só desabafar a sua revolta de adolescente, de judia expulsa da comunidade dos homens, de vítima de uma guerra impiedosa, mas, também, encontrar as explicações e as interpretações de tudo isto.
CONCLUSÃO
Ao meu ver, o livro serve como uma alerta à humanidade, mostrando-nos os horrores da guerra e atrocidades que não devemos esquecer jamais. Mas por ter sido escrito por uma criança, por vermos a guerra sob um ponto de vista infantil, todos os absurdos causados pela política racista de Hitler acabam ganhando um tom comovente e poético. As vezes parece difícil acreditar que um texto tão íntimo e pessoal, como o diário de uma adolescente, tenha se tornado um dos principais documentos sobre o Holocausto. Assim, Anne Frank revestiu o Holocausto de uma face tangível e real, de uma dimensão humana com a qual é possível identificar- se, apesar da dificuldade em lidar com a realidade e o horror da tragédia.
CONTEXTO HISTÓRICO
O Diário de Anne Frank é escrito durante a segunda guerra mundial, tratando especificamente da perseguição da Alemanha de Hitler aos judeus. A partir de 1930, o movimento nazista de Adolf Hitler cresceu, aproveitando-se do descontentamento popular com as crises econômica e política. O Partido Nacional-Socialista (NSDAP) era antidemocrático, anti-semita e de um nacionalismo exaltado. Nomeado chanceler do Reich em 30 de janeiro de 1933, Hitler, que considerava o cargo apenas um passo para a tomada do poder absoluto, começou imediatamente a montar um sistema ditatorial. Desfez-se rapidamente dos aliados que permitiram sua ascensão, reservando-se plenos poderes. Através de uma lei aprovada pelos partidos burgueses, proibiu todas as agrupações políticas, com exceção do seu NSDAP. A partir de então, qualquer tentativa de resistência era brutalmente sufocada. O regime perseguia impiedosamente não só adversários políticos – a começar por comunistas e social-democratas –, como todas as pessoas que não eram do seu agrado. Milhares foram presas e, sem qualquer processo judicial, internadas em campos de concentração construídos da noite para o dia. Mal tomara o poder, o regime começou a pôr em prática seu programa anti-semita. Passo a passo, os judeus foram despidos de seus direitos individuais e civis, proibidos de exercer a profissão, limitados em seu direito de ir e vir, expulsos de universidades, agredidos, forçados a entregar ou vender empresas e propriedades. Quem podia, tentava fugir para o exterior para escapar das expoliações, injustiças e vexações. A perseguição política e a ausência de liberdade de expressão e informação levaram milhares de pessoas a abandonar o país. E é nesse contexto de horrores, de medo e de perseguições, que Anne Frank escreve seu diário, que se tornou um manifesto para que não esqueçamos essa época tão triste e absurda da história da humanidade.
BIBLIOGRAFIA
FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Edição integral; tradução de Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007.
MÜLLER, Melissa. Anne Frank – Uma biografia. Editora Record, 2000.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914 – 1991. Companhia das Letras, 2001.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Texto 09 - “Neonazismo, negacionismo e extremismo político” de Paulo Vizentini
Em “Neonazismo, negacionismo e extremismo político”, o autor Paulo Vizentini começa destacando a diferença entre neonazismo, extrema direita e extremismo político, discutindo todos esses diferentes aspectos. Ele aponta diversos fatores para o ressurgimento da extrema direita e do neonazismo. Nesse sentido, ele afirma que na segunda metade dos anos 70, diminui a solidariedade com o Terceiro Mundo e vai havendo uma mudança no enfoque de como os europeus tratam as questões dos países periféricos. Esse aspecto também é mesclado pelo surgimento de alguns capitalismos bem sucedidos no Terceiro Mundo. Em particular é o começo do chamado "milagre asiático", onde os países ocidentais começam, lentamente, a ser inundados por mercadorias baratas produzidas na Ásia Oriental, que criam um certo tipo de xenofobia, onde é resgatada a noção de "perigo amarelo". A isso soma-se um outro fator também muito importante, que favorece o renascimento do nazi- fascismo: a estagnação e a regressão demográfica dos países do Hemisfério Norte. Em certa altura dos anos 70, os fluxos migratórios, que desde as grandes navegações eram do Norte para o Sul, inverteram-se e passaram a ser do Sul para o Norte, a partir de uma combinação de dois fatores interrelacionados: um, como foi dito, o problema demográfico em si mesmo; outro, a reorganização da economia mundial, que fazia com que alguns setores econômicos do Primeiro Mundo necessitassem de um tipo de mão-de-obra mais barata e fizesse, efetivamente, um apelo a vinda de trabalhadores estrangeiros (os turcos na Alemanha, magrebinos para a França, indianos para a Inglaterra, etc.), que iam encarregar-se de setores que não tinham a margem de lucratividade suficiente para subsistir. Assim, a idéia de "invasão dos bárbaros" vai se arraigando no espírito dos europeus.
Já nos anos 80 acontece a retomada do liberalismo na economia e da Guerra Fria no plano da política internacional, caracterizando-se como uma época marcada pelo desemprego e por incertezas de toda ordem. Os europeus começam a ver sua noção de progresso, prosperidade e segurança ser perdida. Logo, estas tensões sociais vão encontrar uma válvula de escape na xenofobia e no racismo, que foi seu grande ponto de partida e o seu relançamento. Os estrangeiros passam a significar, nesse sentido, pessoas que iriam tomar seus empregos, que estariam mudando seus modos de vida, introduzindo as drogas, a criminalidade, a decadência. Crescem os pedidos para rever a política de imigração para refugiados políticos, que havia sido uma "generosidade" da Europa até aquele momento, muito motivada pelo passado nazista. Dessa forma, começam a crescer as tensões por todo lado.
Assim, os neonazistas começam a fazer ações, principalmente nos países do Leste Europeu, que saem do regime socialista. A extrema-direita, o nacionalismo, a xenofobia e as idéias neonazistas surgem com vigor em países onde até então não havia, de certa forma, estruturas e formas de convivência capazes de lidar com este fenômeno. Para o autor, os analistas ao analisarem o fenômeno recorrem à uma explicação simplista, culpando o comunismo, pouco contribuindo para a real compreensão do problema. O que houve nestas sociedades foi um colapso absoluto, um mundo que ruiu.
O autor finaliza apontando que os riscos contidos no ressurgimento do nazismo e da extrema-direita são incalculáveis, pois estamos vivendo uma espécie de esgotamento, declínio e em alguns pontos, até colapso de uma ordem que existiu anteriormente. E o que irá substituir isto, ainda não está construído, segundo o autor. “É precisamente neste hiato de pânico e desesperança que surge o medo”, destaca Vizentini.
BIBLIOGRAFIA
VÍZENTINI, Paulo Fagundes. O ressurgimento da extrema direita e do neonazismo: a dimensão histórica e internacional. In.: MILMAN, Luis & VÍZENTINI, Paulo Fagundes (org.). Neonazismo, negacionismo e extremismo político. Porto Alegre: UFRGS, 2000, pp. 17-46.
Já nos anos 80 acontece a retomada do liberalismo na economia e da Guerra Fria no plano da política internacional, caracterizando-se como uma época marcada pelo desemprego e por incertezas de toda ordem. Os europeus começam a ver sua noção de progresso, prosperidade e segurança ser perdida. Logo, estas tensões sociais vão encontrar uma válvula de escape na xenofobia e no racismo, que foi seu grande ponto de partida e o seu relançamento. Os estrangeiros passam a significar, nesse sentido, pessoas que iriam tomar seus empregos, que estariam mudando seus modos de vida, introduzindo as drogas, a criminalidade, a decadência. Crescem os pedidos para rever a política de imigração para refugiados políticos, que havia sido uma "generosidade" da Europa até aquele momento, muito motivada pelo passado nazista. Dessa forma, começam a crescer as tensões por todo lado.
Assim, os neonazistas começam a fazer ações, principalmente nos países do Leste Europeu, que saem do regime socialista. A extrema-direita, o nacionalismo, a xenofobia e as idéias neonazistas surgem com vigor em países onde até então não havia, de certa forma, estruturas e formas de convivência capazes de lidar com este fenômeno. Para o autor, os analistas ao analisarem o fenômeno recorrem à uma explicação simplista, culpando o comunismo, pouco contribuindo para a real compreensão do problema. O que houve nestas sociedades foi um colapso absoluto, um mundo que ruiu.
O autor finaliza apontando que os riscos contidos no ressurgimento do nazismo e da extrema-direita são incalculáveis, pois estamos vivendo uma espécie de esgotamento, declínio e em alguns pontos, até colapso de uma ordem que existiu anteriormente. E o que irá substituir isto, ainda não está construído, segundo o autor. “É precisamente neste hiato de pânico e desesperança que surge o medo”, destaca Vizentini.
BIBLIOGRAFIA
VÍZENTINI, Paulo Fagundes. O ressurgimento da extrema direita e do neonazismo: a dimensão histórica e internacional. In.: MILMAN, Luis & VÍZENTINI, Paulo Fagundes (org.). Neonazismo, negacionismo e extremismo político. Porto Alegre: UFRGS, 2000, pp. 17-46.
"O Triunfo da Vontade" de Leni Riefenstahl
Em “O triunfo da vontade”, Leni Riefenstahl filma as colossais e barulhentas concentrações de massa organizadas pelo Partido Nazista. A cineasta utiliza exaustivamente imagens do que é considerado espetacular, extraordinário, harmônico e feliz, o que contribui para a divulgação do nazismo, pois mais do que uma propaganda, a obra transforma lugares cotidianos, pessoas comuns e grandes construções arquitetônicas em personagens coadjuvantes do grande protagonista das telas – Hitler.
A questão é que o documentário de Leni Riefenstahl sobre o 6º Congresso do Partido Nacional Socialista alemão, realizado em 1934, em Nuremberg, sob a liderança de Adolf Hitler, que mostra o desfile monumental das tropas nazistas, os discursos inflamados do Führer e de seus oficiais e a crença absoluta na vitória, dão a idéia de um regime inabalável, instalado para durar mil anos. Atrás de O Triunfo da Vontade está toda uma Alemanha unida, unânime, apoiando o Führer. Hitler é ali retratado como um ídolo, em meio a elementos messiânicos e heróicos. A cidade inteira de Nuremberg é decorada com elementos nazistas, acompanhados por imagens que mostram um povo idólatra. Tudo é grande, colossal, sempre atribuído à figura de Hitler. Presenciamos ali uma das maiores expressões da cultura de massa nascente.
Lení Riefenstahl mostra sequências de discursos de personalidades do Exército alemão que proferem palavras instigantes para incentivar o povo a se engajar na luta por uma nação melhor e para que juntos, transformassem a Alemanha no melhor país do mundo. Em forma de estímulos aparecem dizeres com o objetivo de aumentar o moral do país, ou seja de seu povo, lembrando a todos que possuíam o sangue puro e forte. Um dos momentos mais intensos do filme se dá no ato em que Hitler diz aos jovens que eles eram sangue de seu sangue e que juntos formavam uma só vontade. Isto certamente inseriu estímulos nos ouvintes, pois Hitler era muito admirado por eles. Ele mais do que um líder dos homens, transforma-se em mais um deles, numa sinergia absurdamente bem construída pelas lentes da diretora.
Sendo assim, Triunfo da Vontade é um filme obrigatório por várias razões. Primeiro, por ser uma fonte histórica que nos mostra a máquina nazista em seu apogeu. Também porque nos ajuda a entender até onde se pode ir com a propaganda política. Com ele, conhecemos melhor a essência do totalitarismo e podemos refletir sobre as relações entre arte, ideologia e poder. Por fim, trata-se de uma experiência estética arrojada do ponto de vista formal que influenciou os rumos do cinema documental. É um filme contraditório por tudo que o nazismo representa, mas que deve ser visto.
Para finalizar é importante destacar que, apesar de todas as discussões sobre o fato dela ter sido ou não nazista, se ela acreditava nos ideais do nacional socialismo ou se ela era apenas uma profissional contratada para fazer seu trabalho não podem interferir nas análises sobre a genialidade de sua obra. Foi ela que criou um novo jeito de olhar para o homem público, para o corpo humano e para uma cultura e ainda usou com maestria a linguagem cinematográfica de uma forma única, em um tempo em que não existiam muitos recursos digitais ou de pós-produção como hoje. Assim, seu legado permanece até os dias atuais, e está presente nas tomadas, nos ângulos, no roteiro, na forma em que as pessoas foram educadas para olhar e perceber o mundo através das imagens e sons do cinema. Mas infelizmente, ela só teve a oportunidade de manifestar sua capacidade e arte num contexto histórico extremamente complicado.
BIBLIOGRAFIA
SILVA, Francisco C. T. da, ”Os Fascismos” In ___ FILHO, Daniel Aarão Reis (org.).BERMAN, Marshall “Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade”. (páginas: 24 a 49).
A questão é que o documentário de Leni Riefenstahl sobre o 6º Congresso do Partido Nacional Socialista alemão, realizado em 1934, em Nuremberg, sob a liderança de Adolf Hitler, que mostra o desfile monumental das tropas nazistas, os discursos inflamados do Führer e de seus oficiais e a crença absoluta na vitória, dão a idéia de um regime inabalável, instalado para durar mil anos. Atrás de O Triunfo da Vontade está toda uma Alemanha unida, unânime, apoiando o Führer. Hitler é ali retratado como um ídolo, em meio a elementos messiânicos e heróicos. A cidade inteira de Nuremberg é decorada com elementos nazistas, acompanhados por imagens que mostram um povo idólatra. Tudo é grande, colossal, sempre atribuído à figura de Hitler. Presenciamos ali uma das maiores expressões da cultura de massa nascente.
Lení Riefenstahl mostra sequências de discursos de personalidades do Exército alemão que proferem palavras instigantes para incentivar o povo a se engajar na luta por uma nação melhor e para que juntos, transformassem a Alemanha no melhor país do mundo. Em forma de estímulos aparecem dizeres com o objetivo de aumentar o moral do país, ou seja de seu povo, lembrando a todos que possuíam o sangue puro e forte. Um dos momentos mais intensos do filme se dá no ato em que Hitler diz aos jovens que eles eram sangue de seu sangue e que juntos formavam uma só vontade. Isto certamente inseriu estímulos nos ouvintes, pois Hitler era muito admirado por eles. Ele mais do que um líder dos homens, transforma-se em mais um deles, numa sinergia absurdamente bem construída pelas lentes da diretora.
Sendo assim, Triunfo da Vontade é um filme obrigatório por várias razões. Primeiro, por ser uma fonte histórica que nos mostra a máquina nazista em seu apogeu. Também porque nos ajuda a entender até onde se pode ir com a propaganda política. Com ele, conhecemos melhor a essência do totalitarismo e podemos refletir sobre as relações entre arte, ideologia e poder. Por fim, trata-se de uma experiência estética arrojada do ponto de vista formal que influenciou os rumos do cinema documental. É um filme contraditório por tudo que o nazismo representa, mas que deve ser visto.
Para finalizar é importante destacar que, apesar de todas as discussões sobre o fato dela ter sido ou não nazista, se ela acreditava nos ideais do nacional socialismo ou se ela era apenas uma profissional contratada para fazer seu trabalho não podem interferir nas análises sobre a genialidade de sua obra. Foi ela que criou um novo jeito de olhar para o homem público, para o corpo humano e para uma cultura e ainda usou com maestria a linguagem cinematográfica de uma forma única, em um tempo em que não existiam muitos recursos digitais ou de pós-produção como hoje. Assim, seu legado permanece até os dias atuais, e está presente nas tomadas, nos ângulos, no roteiro, na forma em que as pessoas foram educadas para olhar e perceber o mundo através das imagens e sons do cinema. Mas infelizmente, ela só teve a oportunidade de manifestar sua capacidade e arte num contexto histórico extremamente complicado.
BIBLIOGRAFIA
SILVA, Francisco C. T. da, ”Os Fascismos” In ___ FILHO, Daniel Aarão Reis (org.).BERMAN, Marshall “Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade”. (páginas: 24 a 49).
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Texto 08 - "Sol Negro – Cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade"
Em “Sol Negro – Cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade”, o autor Nicholas Goodrick- Clarke argumenta que o conceito de Raça é o imã dos cultos arianos e do nazismo esotérico, o princípio- guia de sua visão de mundo histórica e política e defende que diversos fatores na política ocidental agiram para reintroduzir a Raça como uma categoria legítima de identificação grupal. Ele cita que na década de 1960, nos EUA, grupos de poder negro exigiram o reconhecimento oficial do status de grupo “minoritário” e ação compensatória por parte do Estado, sendo que a institucionalização dessas exigências levou a vastos programas de oportunidades iguais e ação afirmativa em relação a empregos e educação para os negros americanos. Para o autor, os efeitos dessas políticas causaram ressentimento sobre os brancos, pois esses privilégios foram fornecidos baseados no critério de raça, o que gerou o crescimento da extrema direita racista.
O autor diz ainda que associar as causas dos crimes cometidos por negros, assim como seu envolvimento com drogas com o racismo dos brancos tem sido um fator no estímulo da extrema direita racista. Assim, os cultos arianos e o nazismo esotérico afirmam poderosas mitologias para negar o declínio do poder branco no mundo. Ele afirma que o pessimismo cultural de Savitri Devi e de Miguel Serrano justifica-se em uma era degenerada, tomada por “inferiores raciais e sociais”.
Ele ressalta também a questão da imigração nos EUA, mostrando que a imigração legal anual é de cerca de 1 milhão, enquanto a ilegal é de cerca de 2 a 3 milhões, se questionando se os norte-americanos podem assimilar esses imigrantes. Para ele, a primazia dos direitos humanos internacionais sobre noções de soberania nacional também levou a uma erosão progressiva da cidadania, pela qual estrangeiros clandestinos recebem benefícios do bem- estar social, da educação, de subsídios do governo e até mesmo direito ao voto, sendo que essas questões são de profunda preocupação para grupos conservadores nos EUA.
O autor conclui que os desafios do multirracismo nos Estados ocidentais liberais são enormes e afirma que a ação afirmativa e o multiculturalismo estão levando a uma hostilidade ainda mais difusa contra o liberalismo. Assim, os cultos arianos e o nazismo esotérico podem ser documentados como sintomas iniciais de grandes mudanças desestabilizadoras nas democracias ocidentais da atualidade.
BIBLIOGRAFIA
GOODRICK-CLARKE, Nicholas. Sol negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. São Paulo: Madras, 2004, pp. 397-401.
O autor diz ainda que associar as causas dos crimes cometidos por negros, assim como seu envolvimento com drogas com o racismo dos brancos tem sido um fator no estímulo da extrema direita racista. Assim, os cultos arianos e o nazismo esotérico afirmam poderosas mitologias para negar o declínio do poder branco no mundo. Ele afirma que o pessimismo cultural de Savitri Devi e de Miguel Serrano justifica-se em uma era degenerada, tomada por “inferiores raciais e sociais”.
Ele ressalta também a questão da imigração nos EUA, mostrando que a imigração legal anual é de cerca de 1 milhão, enquanto a ilegal é de cerca de 2 a 3 milhões, se questionando se os norte-americanos podem assimilar esses imigrantes. Para ele, a primazia dos direitos humanos internacionais sobre noções de soberania nacional também levou a uma erosão progressiva da cidadania, pela qual estrangeiros clandestinos recebem benefícios do bem- estar social, da educação, de subsídios do governo e até mesmo direito ao voto, sendo que essas questões são de profunda preocupação para grupos conservadores nos EUA.
O autor conclui que os desafios do multirracismo nos Estados ocidentais liberais são enormes e afirma que a ação afirmativa e o multiculturalismo estão levando a uma hostilidade ainda mais difusa contra o liberalismo. Assim, os cultos arianos e o nazismo esotérico podem ser documentados como sintomas iniciais de grandes mudanças desestabilizadoras nas democracias ocidentais da atualidade.
BIBLIOGRAFIA
GOODRICK-CLARKE, Nicholas. Sol negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. São Paulo: Madras, 2004, pp. 397-401.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Arquitetura da destruição - Dir: Peter Cohen
A Arquitetura da Destruição de Peter Cohen é um registro impressionante da forma como os nazistas usam as artes para manipular as mentes. O documentário narra a trajetória de Hitler e de alguns de seus mais próximos colaboradores com a arte. Mostra que o nazismo nasceu em oposição ao racionalismo e conhece o desejo do povo e seus maiores sonhos, sonhos esses que somente um artista pode dar forma. Assim, artistas frustados eram frequentes no comando do Terceiro Reich. Muitos tinham se empenhado na carreira artistica, como por exemplo Goebbels que ja havia escrito um romance, poesias e peças. Já Hitler era um pintor frustado – pintava aquarelas em forma de cartões postais – e sonhava em ser arquiteto. Chegou a participar da Escola de Arte de Viena, de onde saiu aos 18 anos. Gostava de temas como a Antigüidade, de sua cidade natal Linz e de Wagner. Ele declarava que quando a guerra terminasse, iria se dedicar às artes.
O compositor Wagner era o grande ídolo de Hitler. Ele representava para o líder nazista o artista criativo e politico, que eram uma só pessoa. Hitler absorveu as propostas de Wagner. Anti- semitismo, culto ao legado nórdico, mito do sangue puro – todos esses fatores deram contorno à visão de Hitler sobre o mundo. Também de Wagner vieram as noções de arte para uma nova civilização.
O documentário destaca ainda a importância da arte na propaganda, que por sua vez teve papel fundamental no desenvolvimento do nazismo em toda a Alemanha. Hitler usou seu supostos “dons” artísticos na política. Ele criou a propoganda a nazista, desde o uniforme até as bandeiras e estandartes. Deu forma ao Nazismo com seus desenhos e instruções. A insígnia do Partido Nazista foi criada por ele em 1923.
Assim, o nacional-socialismo foi concebido como uma obra, uma ação artística com as finalidades de beleza e perfeição, para a edificação da Alemanha. O objetivo era a preservação de uma raça e a eliminação das diferenças, ou seja, a subtração de tudo que pudesse corromper e adulterar o que havia sido definido como completo e limpo. Não seriam aceitas mestiçagens, nenhuma mistura. Nesse sentido, é importante ressaltar como exemplo uma exposição que foi realizada em março de 1935 em Berlim, chamada de “o milagre da vida”. Nela, a figura de um médico emerge como líder da política racial. Na busca do sangue puro, os inimigos são os judeus, os miscigenados e a degeneração. Em uma seção da exposição é mostrada fotos de doentes mentais e indigentes com a frase – “Isto pode ser chamado de vida?”. Hitler costumava declarar que o maior princípio da beleza é a saúde. Daí a importância dos médicos para criar o chamado “novo homem alemão”. Essa classe profissional, mais do que qualquer outra, aderiu à ideologia nazista. 45 % dos médicos pertenciam ao Partido.
Até irromper a guerra Hitler se dedicou à arquitetura da nova Alemanha. Seu sonho arquitetônico era de imensas proporções. Mais de 40 cidades com projetos de construção monumental. A guerra, para Hitler, era vista como uma arte. O documentário nos mostra a visita de Hitler à Paris logo após a ocupação: O Fuher chega de avião durante a madrugada, visita a Ópera, o Arco do Triunfo, alguns prédios imponentes. Volta para a Alemanha no mesmo dia. Assim, logo após o ataque à URSS inspira Hitler numa nova iniciativa: uma organização para a arte da guerra. A ambição de Hitler era sem limites - para ele, Moscou devia ser apagada da memória. Uma enorme represa seria construída no local.
Para dar vida aos seus imensos projetos os nazistas aplicariam o método da escravização do inimigo com uma habitualidade sem igual nos tempos modernos. Só para o projeto de reconstrução de Berlim foi requisitado 30 mil prisioneiros de guerra. E é interessante perceber que, durante toda a guerra, mesmo no período final com a proximidade da derrota, os projetos arquitetônicos do Terceiro Reich continuaram em andamento, pretendendo construir a nova Berlim, capital do mundo.
O documentário termina mostrando que com a morte de Hitler nada restou. O nazismo entra em colapso. Não há mais slogans nem focos de resistência. O nazismo perdera completamente seus adeptos e seus ímpetos. E o que a obra de Peter Cohen faz é deixar claro que a maior ambição da ideologia nazista era o embelezamento do mundo – a sua força motora era a estética. Das mortes de doentes mentais ao exterminio dos judeus não houve um verdadeiro motivo político que justificasse tamanhas atrocidades.
BIBLIOGRAFIA
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
O compositor Wagner era o grande ídolo de Hitler. Ele representava para o líder nazista o artista criativo e politico, que eram uma só pessoa. Hitler absorveu as propostas de Wagner. Anti- semitismo, culto ao legado nórdico, mito do sangue puro – todos esses fatores deram contorno à visão de Hitler sobre o mundo. Também de Wagner vieram as noções de arte para uma nova civilização.
O documentário destaca ainda a importância da arte na propaganda, que por sua vez teve papel fundamental no desenvolvimento do nazismo em toda a Alemanha. Hitler usou seu supostos “dons” artísticos na política. Ele criou a propoganda a nazista, desde o uniforme até as bandeiras e estandartes. Deu forma ao Nazismo com seus desenhos e instruções. A insígnia do Partido Nazista foi criada por ele em 1923.
Assim, o nacional-socialismo foi concebido como uma obra, uma ação artística com as finalidades de beleza e perfeição, para a edificação da Alemanha. O objetivo era a preservação de uma raça e a eliminação das diferenças, ou seja, a subtração de tudo que pudesse corromper e adulterar o que havia sido definido como completo e limpo. Não seriam aceitas mestiçagens, nenhuma mistura. Nesse sentido, é importante ressaltar como exemplo uma exposição que foi realizada em março de 1935 em Berlim, chamada de “o milagre da vida”. Nela, a figura de um médico emerge como líder da política racial. Na busca do sangue puro, os inimigos são os judeus, os miscigenados e a degeneração. Em uma seção da exposição é mostrada fotos de doentes mentais e indigentes com a frase – “Isto pode ser chamado de vida?”. Hitler costumava declarar que o maior princípio da beleza é a saúde. Daí a importância dos médicos para criar o chamado “novo homem alemão”. Essa classe profissional, mais do que qualquer outra, aderiu à ideologia nazista. 45 % dos médicos pertenciam ao Partido.
Até irromper a guerra Hitler se dedicou à arquitetura da nova Alemanha. Seu sonho arquitetônico era de imensas proporções. Mais de 40 cidades com projetos de construção monumental. A guerra, para Hitler, era vista como uma arte. O documentário nos mostra a visita de Hitler à Paris logo após a ocupação: O Fuher chega de avião durante a madrugada, visita a Ópera, o Arco do Triunfo, alguns prédios imponentes. Volta para a Alemanha no mesmo dia. Assim, logo após o ataque à URSS inspira Hitler numa nova iniciativa: uma organização para a arte da guerra. A ambição de Hitler era sem limites - para ele, Moscou devia ser apagada da memória. Uma enorme represa seria construída no local.
Para dar vida aos seus imensos projetos os nazistas aplicariam o método da escravização do inimigo com uma habitualidade sem igual nos tempos modernos. Só para o projeto de reconstrução de Berlim foi requisitado 30 mil prisioneiros de guerra. E é interessante perceber que, durante toda a guerra, mesmo no período final com a proximidade da derrota, os projetos arquitetônicos do Terceiro Reich continuaram em andamento, pretendendo construir a nova Berlim, capital do mundo.
O documentário termina mostrando que com a morte de Hitler nada restou. O nazismo entra em colapso. Não há mais slogans nem focos de resistência. O nazismo perdera completamente seus adeptos e seus ímpetos. E o que a obra de Peter Cohen faz é deixar claro que a maior ambição da ideologia nazista era o embelezamento do mundo – a sua força motora era a estética. Das mortes de doentes mentais ao exterminio dos judeus não houve um verdadeiro motivo político que justificasse tamanhas atrocidades.
BIBLIOGRAFIA
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
domingo, 18 de maio de 2008
Texto 07 - "A anatomia do fascismo" - cap.07
No sétimo capítulo de seu livro “A anatomia do fascismo”, o autor Robert Paxton começa perguntando se o fascismo ainda é possível, se há a possibilidade de um Quarto Reich estar sendo gestado. Ele aponta que alguns estudiosos importantes afirmam que o período fascista terminou em 1945, entre os quais Ernst Nolte, que entende que embora o fascismo exista em épocas posteriores a 1945, ele foi despojado de qualquer significado real. Para o autor, a repugnância que o movimento fascista gerou após 1945 impediu o renascimento do fascismo clássico, afinal as fotografias dos campos de concentração chocavam a sociedade e a essa altura Mussolini já era motivo de chacota. Além disso, a prosperidade da economia mundial, a globalização, o triunfo do consumismo individual, entre outros fatores, apontavam que o fascismo dificilmente voltaria após 1945, pelo menos não da mesma forma.
Porém, preocupar-se com tal questão é de fato relevante, pois na década de 1990 teve uma serie de acontecimentos que colocaram em duvida o fim do fascismo, como a limpeza étnica nos Bálcãs, a disseminação da violência dos skinheads contra imigrantes na Inglaterra, na Alemanha e na Itália e etc. Assim, ocorreram uma serie de fatores que permitiu manter viva uma grande variedade de temas e de práticas da extrema direita.
Para o autor, o fato de acreditarmos ou não no retorno do fascismo depende do que entendemos por fascismo. Ele argumenta que os elementos definidores do fascismo clássico, como o gosto pela guerra ou a tendência à formação de uma sociedade baseada na exclusão violenta, não tem espaço no complexo contexto político do pós- guerra. Um fascismo “do futuro”, que seria uma reação de emergência a alguma crise ainda não imaginada, não necessariamente deveria ter semelhança perfeita com o fascismo clássico. Como exemplo, ele cita que um novo fascismo teria que demonizar algum inimigo externo ou interno, mas esse inimigo não seria o povo judeu. Um fascismo norte- americano seria religioso, anti- negros e anti- islâmico. Assim, um novo movimento fascista usaria símbolos novos, teria inimigos diferentes e até mesmo daria a si próprio um outro nome, o quê, porém, não o tornaria menos perigoso.
Para melhor entender se o movimento fascista ainda é possível, o autor estrutura o que seria estágios do movimento. O estágio 1, que corresponderia ao estágio da fundação, nos mostra que movimentos de extrema- direita com vínculo com o fascismo continuam ocorrendo de forma generalizada. Já no segundo estágio, quando esses movimentos se tornam enraizados nos sistemas políticos como atores importantes e representantes de interesses significativos, impõe-se testes históricos de um grau muito maior de exigência. Sendo assim, segundo o autor, o estágio 2 foi atingido apenas por movimentos e partidos de direita radicais, que fizeram o máximo para se “normalizar”, transformando-se apenas em partidos de aparência moderada. E nesse sentido, a Europa Ocidental, de 1945 até os dias atuais, é a região que apresenta o mais forte legado fascista, com maior proliferação desses partidos, sendo importante ressaltar que esse neofascismo saudosista não se limitou à Alemanha e à Itália.
BIBLIOGRAFIA
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007. pp. 283-334.
Porém, preocupar-se com tal questão é de fato relevante, pois na década de 1990 teve uma serie de acontecimentos que colocaram em duvida o fim do fascismo, como a limpeza étnica nos Bálcãs, a disseminação da violência dos skinheads contra imigrantes na Inglaterra, na Alemanha e na Itália e etc. Assim, ocorreram uma serie de fatores que permitiu manter viva uma grande variedade de temas e de práticas da extrema direita.
Para o autor, o fato de acreditarmos ou não no retorno do fascismo depende do que entendemos por fascismo. Ele argumenta que os elementos definidores do fascismo clássico, como o gosto pela guerra ou a tendência à formação de uma sociedade baseada na exclusão violenta, não tem espaço no complexo contexto político do pós- guerra. Um fascismo “do futuro”, que seria uma reação de emergência a alguma crise ainda não imaginada, não necessariamente deveria ter semelhança perfeita com o fascismo clássico. Como exemplo, ele cita que um novo fascismo teria que demonizar algum inimigo externo ou interno, mas esse inimigo não seria o povo judeu. Um fascismo norte- americano seria religioso, anti- negros e anti- islâmico. Assim, um novo movimento fascista usaria símbolos novos, teria inimigos diferentes e até mesmo daria a si próprio um outro nome, o quê, porém, não o tornaria menos perigoso.
Para melhor entender se o movimento fascista ainda é possível, o autor estrutura o que seria estágios do movimento. O estágio 1, que corresponderia ao estágio da fundação, nos mostra que movimentos de extrema- direita com vínculo com o fascismo continuam ocorrendo de forma generalizada. Já no segundo estágio, quando esses movimentos se tornam enraizados nos sistemas políticos como atores importantes e representantes de interesses significativos, impõe-se testes históricos de um grau muito maior de exigência. Sendo assim, segundo o autor, o estágio 2 foi atingido apenas por movimentos e partidos de direita radicais, que fizeram o máximo para se “normalizar”, transformando-se apenas em partidos de aparência moderada. E nesse sentido, a Europa Ocidental, de 1945 até os dias atuais, é a região que apresenta o mais forte legado fascista, com maior proliferação desses partidos, sendo importante ressaltar que esse neofascismo saudosista não se limitou à Alemanha e à Itália.
BIBLIOGRAFIA
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007. pp. 283-334.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Texto 06 - "Modernidade e Holocausto"
Em “Modernidade e Holocausto” o sociólogo polonês Zygmunt Bauman demonstra que o Holocausto deve ser compreendido sobretudo em sua ligação profunda com a natureza da modernidade. Conforme o autor, o Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura.
No quarto capítulo de seu livro – “Singularidade e normalidade do Holocausto” – o autor chama atenção para o fato de que mesmo o Holocausto tendo acontecido há quase meio século, mesmo a geração que viveu essa experiência catastrófica diretamente praticamente já desapareceu, ainda assim, os aspectos do Holocausto ainda fazem parte de nossas vidas, não foram eliminados, logo também não o foi a possibilidade do Holocausto. Segundo o autor, é importante lembrarmos que o Holocausto em 1941 não era esperado e um ano após sua realidade deparava-se com a incredulidade geral, as pessoas recusavam-se a acreditar. Assim, mesmo que no presente momento a gente não consiga imaginar um evento dessa natureza, devemos sempre lembrar que em 1941 também era inimaginável, então para não cometermos os mesmos erros do passado – “o inimaginável deve ser imaginado”.
Para o autor há duas razões pelas quais o Holocausto não pode ser reduzido a um assunto acadêmico, a uma contemplação filosófica. A primeira delas é que mesmo o Holocausto tendo mudado o curso da história subseqüente, pouco mudou o curso da história subseqüente de nossa consciência coletiva e auto- percepção, pois causou pouco impacto visível na imagem que fazemos do significado e da tendência histórica da civilização moderna. Já a segunda razão é que podemos suspeitar que as condições que um dia deram origem ao Holocausto não foram radicalmente transformadas, podendo estar ainda entre nós, à espera de uma oportunidade. O autor enfatiza que se havia algo em nossa ordem social que tornou o Holocausto possível em 1941, não podemos ter certeza de que foi eliminado desde então. O Estado moderno pode fazer o que bem entende àqueles sob seu controle, não havendo limite ético- moral que o Estado não possa transceder para fazer o que quiser, porque não há poder mais alto do que o Estado. Daí é importante ressaltar a reflexão que o autor faz entre o Holocausto e a Modernidade, mostrando que genocídios, assassinatos em massa não são uma invenção moderna. O que ocorreu foi que a Modernidade ao prometer, ao dar uma expectativa de melhoria nas relações humanas, acabou que nada alterou em relação as desumanidades, crueldades, praticas pelo homem contra o homem. Mas dizer que o Holocausto é um produto da modernidade é um erro, visto que a história esta cheia de antagonismos entre comunidades e seitas, que por muitas vezes leva ao massacre e ao extermínio de populações e culturas inteiras. Assim, o genocídio acompanha a história da humanidade desde o inicio e existe até hoje ( exemplos não faltam: conflitos na Ruanda, na Bosnia, mais recentemente no Tibet).
Mas ainda que o extermínio em massa não seja característica exclusiva do Holocausto, há aspectos presentes nesse que não encontramos em nenhum caso anterior. Para o autor, são justamente esses aspectos que merecem especial atenção, começando pelo fato de que a civilização moderna teve aqui um papel ativo, e não passivo. Executado à maneira moderna – pois foi planejado, racional, cientifico, eficientemente coordenado – o Holocausto superou todos os seus equivalentes pré- modernos, considerados como primitivos e ineficientes. Outro aspecto notável é que nos casos modernos de genocídio ( mais precisamente nos casos de Hitler e Stalin) nunca havia sido visto tanta gente ser assassinada em tão pouco tempo. Assim, o caráter geral não- violento da civilização moderna é uma ilusão, é parte integrante de sua auto- apologia, de seu mito legitimador. Da mesma maneira que fomos treinados a abominar e detestar outras coisas, a violência foi retirada da nossa vista, mas não da nossa existência, sendo encerrada em territórios segregados e isolados, que em geral não são de interesse para os seres humanos “civilizados”.
O autor aponta ainda o papel da burocracia no Holocausto, que recebeu a tarefa de tornar o país livre de judeus. Para melhor explicar isso, ele cita duas correntes, os “intencionalistas” e “funcionalistas”. Os primeiros defendem que matar os judeus era desde o inicio uma firme decisão de Hitler, à espera das condições oportunas para tal. Já a segunda atribuiu a Hitler a idéia geral de encontrar uma solução para o “problema judeu”, clara apenas na visão de uma Alemanha limpa, mas vaga quanto aos passos a serem tomados para tornar possível essa visão. Conforme o autor, independente de qualquer pensamento, o espaço que se estendeu entre a idéia e sua execução foi preenchido pela ação burocrática. “A burocracia contribuiu para a continuidade do Holocausto não apenas por sua inerente capacidade e suas técnicas, mas também por sua imanente enfermidade e afecções”, conclui o autor.
Para finalizar, podemos dizer que a proposta do livro é a de mostrar que tanto a estrutura básica da sociedade moderna, quanto a maneira de agir de seus membros não mudaram, mesmo sessenta anos após o Holocausto. De nossa parte, consideramos que os horrores do genocídio não se distinguem de outros sofrimentos que a sociedade nos impõe todos os dias, o que identifica o Holocausto não como uma aberração, mas sim como uma decorrência da modernidade. Trata-se de uma questão pertinente e cada vez mais atual e um dos caminhos, ao meu ver, para que possamos impedir que a nossa civilização se torne um grande campo de extermínio é a consciência de que não derrotamos a barbárie.
BIBLIOGRAFIA
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. pp. 106-141.
No quarto capítulo de seu livro – “Singularidade e normalidade do Holocausto” – o autor chama atenção para o fato de que mesmo o Holocausto tendo acontecido há quase meio século, mesmo a geração que viveu essa experiência catastrófica diretamente praticamente já desapareceu, ainda assim, os aspectos do Holocausto ainda fazem parte de nossas vidas, não foram eliminados, logo também não o foi a possibilidade do Holocausto. Segundo o autor, é importante lembrarmos que o Holocausto em 1941 não era esperado e um ano após sua realidade deparava-se com a incredulidade geral, as pessoas recusavam-se a acreditar. Assim, mesmo que no presente momento a gente não consiga imaginar um evento dessa natureza, devemos sempre lembrar que em 1941 também era inimaginável, então para não cometermos os mesmos erros do passado – “o inimaginável deve ser imaginado”.
Para o autor há duas razões pelas quais o Holocausto não pode ser reduzido a um assunto acadêmico, a uma contemplação filosófica. A primeira delas é que mesmo o Holocausto tendo mudado o curso da história subseqüente, pouco mudou o curso da história subseqüente de nossa consciência coletiva e auto- percepção, pois causou pouco impacto visível na imagem que fazemos do significado e da tendência histórica da civilização moderna. Já a segunda razão é que podemos suspeitar que as condições que um dia deram origem ao Holocausto não foram radicalmente transformadas, podendo estar ainda entre nós, à espera de uma oportunidade. O autor enfatiza que se havia algo em nossa ordem social que tornou o Holocausto possível em 1941, não podemos ter certeza de que foi eliminado desde então. O Estado moderno pode fazer o que bem entende àqueles sob seu controle, não havendo limite ético- moral que o Estado não possa transceder para fazer o que quiser, porque não há poder mais alto do que o Estado. Daí é importante ressaltar a reflexão que o autor faz entre o Holocausto e a Modernidade, mostrando que genocídios, assassinatos em massa não são uma invenção moderna. O que ocorreu foi que a Modernidade ao prometer, ao dar uma expectativa de melhoria nas relações humanas, acabou que nada alterou em relação as desumanidades, crueldades, praticas pelo homem contra o homem. Mas dizer que o Holocausto é um produto da modernidade é um erro, visto que a história esta cheia de antagonismos entre comunidades e seitas, que por muitas vezes leva ao massacre e ao extermínio de populações e culturas inteiras. Assim, o genocídio acompanha a história da humanidade desde o inicio e existe até hoje ( exemplos não faltam: conflitos na Ruanda, na Bosnia, mais recentemente no Tibet).
Mas ainda que o extermínio em massa não seja característica exclusiva do Holocausto, há aspectos presentes nesse que não encontramos em nenhum caso anterior. Para o autor, são justamente esses aspectos que merecem especial atenção, começando pelo fato de que a civilização moderna teve aqui um papel ativo, e não passivo. Executado à maneira moderna – pois foi planejado, racional, cientifico, eficientemente coordenado – o Holocausto superou todos os seus equivalentes pré- modernos, considerados como primitivos e ineficientes. Outro aspecto notável é que nos casos modernos de genocídio ( mais precisamente nos casos de Hitler e Stalin) nunca havia sido visto tanta gente ser assassinada em tão pouco tempo. Assim, o caráter geral não- violento da civilização moderna é uma ilusão, é parte integrante de sua auto- apologia, de seu mito legitimador. Da mesma maneira que fomos treinados a abominar e detestar outras coisas, a violência foi retirada da nossa vista, mas não da nossa existência, sendo encerrada em territórios segregados e isolados, que em geral não são de interesse para os seres humanos “civilizados”.
O autor aponta ainda o papel da burocracia no Holocausto, que recebeu a tarefa de tornar o país livre de judeus. Para melhor explicar isso, ele cita duas correntes, os “intencionalistas” e “funcionalistas”. Os primeiros defendem que matar os judeus era desde o inicio uma firme decisão de Hitler, à espera das condições oportunas para tal. Já a segunda atribuiu a Hitler a idéia geral de encontrar uma solução para o “problema judeu”, clara apenas na visão de uma Alemanha limpa, mas vaga quanto aos passos a serem tomados para tornar possível essa visão. Conforme o autor, independente de qualquer pensamento, o espaço que se estendeu entre a idéia e sua execução foi preenchido pela ação burocrática. “A burocracia contribuiu para a continuidade do Holocausto não apenas por sua inerente capacidade e suas técnicas, mas também por sua imanente enfermidade e afecções”, conclui o autor.
Para finalizar, podemos dizer que a proposta do livro é a de mostrar que tanto a estrutura básica da sociedade moderna, quanto a maneira de agir de seus membros não mudaram, mesmo sessenta anos após o Holocausto. De nossa parte, consideramos que os horrores do genocídio não se distinguem de outros sofrimentos que a sociedade nos impõe todos os dias, o que identifica o Holocausto não como uma aberração, mas sim como uma decorrência da modernidade. Trata-se de uma questão pertinente e cada vez mais atual e um dos caminhos, ao meu ver, para que possamos impedir que a nossa civilização se torne um grande campo de extermínio é a consciência de que não derrotamos a barbárie.
BIBLIOGRAFIA
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. pp. 106-141.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Texto 05 - "A era dos extremos" de Eric Hobsbawn - cap.5
O maior mérito do livro A era dos extremos de Eric Hobsbawm é transmitir uma forte impressão do tamanho da catástrofe humana que foi o século XX. Catástrofe em relação às atrocidades gigantescas que foram cometidas, sem equiparação possível com qualquer período histórico anterior e em relação à desvalorização do indivíduo, ao qual, durante longos momentos do “breve” século, foram negados todos os direitos humanos e civis, que haviam sido arduamente conquistados durante o “longo” século precedente: 1789-1914.
Assim, o autor inicia o quinto capítulo de seu livro – “contra o inimigo comum” – apontando a aliança entre norte- americanos e soviéticos - o que parece paradoxal, mas foi fundamental para a época – citando como exemplo uma pesquisa realizada em janeiro de 1939, quando 83% dos norte- americanos disseram preferir uma vitoria soviética, caso ocorresse uma guerra entre estes e os alemães. Trata-se de um resultado curioso e até mesmo contraditório, visto que o “breve” século 20 foi dominado por, de um lado, o comunismo anti- capitalista, e de outro, pelo capitalismo anti- comunista. Soma-se a isso o fato de que a tirania de Stalin na URSS, na época em que a pesquisa foi realizada, se encontrava em seu pior estágio, o que torna o seu resultado ainda mais “excepcional”.
Tal aliança, que para o autor durou de 1939 até 1947, firmada entre os dois países se deu devido a ascensão e queda da Alemanha nazista, pois tanto os EUA quanto a URSS viam em Hitler um perigo maior do que viam um em relação ao outro – daí a expressão utilizada pelo autor: “inimigo em comum”.
O apelo a idéia anti- fascista se intensificava, pois estes tratavam os liberais, os socialistas ou qualquer tipo de regime democrático como inimigos a serem destruídos. Assim todos tinham que se unir, caso não quisessem ser eliminados, um por um.
Hobsbawn destaca ainda como símbolo das disputas ideológicas travadas na década de 1930 a Guerra Civil Espanhola, que suscitou os principais problemas políticos da época e deu forma aos conflitos de idéias opostas que iriam culminar com a Segunda Guerra Mundial. E destaca ainda que o evento antecipou e moldou as forças que iriam destruir o fascismo. O autor aponta ainda os movimentos de resistência europeus, que teve um maior significado político e moral, do que propriamente militar. Esses movimentos pendiam em geral para a esquerda, devido à internacionalidade do comunismo e a convicção que seus partidários tinham em dedicar suas vidas a uma causa. Porém é importante ressaltar que os comunistas não tentaram estabelecer regimes revolucionários, pois as poucas revoluções que aconteceram (Iugoslávia, Albânia e China) foram feitas contra a vontade de Stálin e da URSS.
Uma questão muito importante, que não pode deixar de ser destacada, é a de que tudo que Hobsbawn esclarece nesse capitulo em relação ao “inimigo comum” só pode ser aplicado à Europa, algumas partes do Japão e America Latina, pois para a maior pare da Ásia, África e mundo islâmico, o maior inimigo era o “imperialismo”, ou “colonialismo”.Como as principais potências imperialistas eram os países liberais, as lutas anticolonialistas e antifascistas tendiam a tomar rumos opostos. Assim uma questão importante é levantada por Hobsbawn: Por que a maior parte dos movimentos de libertação se inclinaram para a esquerda e não para os regimes fascistas? O autor responde esta pergunta observando que a maior parte destes movimentos foi iniciada por minorias atípicas da população, não interessadas em preceitos fascistas como o racismo; e por intelectuais que haviam estudado na Europa, e que, portanto, se sentiam mais à vontade no ambiente não racista e anticolonial dos liberais, democratas, socialistas e comunistas. Além disso, a esquerda internacional era a principal fomentadora das idéias e políticas antiimperialistas.
Assim, como o fascismo não conseguiu ir além de seus países de origem e com sua derrocada total, comunistas e capitalistas puderam voltar ao seu estágio anterior, uma vez que não tinham mais um “inimigo em comum”, e voltaram a se enfrentar, dando inicio a um outro conflito, mais ideológico do que militar, conhecido como Guerra Fria.
BIBLIOGRAFIA
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o Breve Século XX (1914-1991). Companhia das Letras: São Paulo, 1994.
Assim, o autor inicia o quinto capítulo de seu livro – “contra o inimigo comum” – apontando a aliança entre norte- americanos e soviéticos - o que parece paradoxal, mas foi fundamental para a época – citando como exemplo uma pesquisa realizada em janeiro de 1939, quando 83% dos norte- americanos disseram preferir uma vitoria soviética, caso ocorresse uma guerra entre estes e os alemães. Trata-se de um resultado curioso e até mesmo contraditório, visto que o “breve” século 20 foi dominado por, de um lado, o comunismo anti- capitalista, e de outro, pelo capitalismo anti- comunista. Soma-se a isso o fato de que a tirania de Stalin na URSS, na época em que a pesquisa foi realizada, se encontrava em seu pior estágio, o que torna o seu resultado ainda mais “excepcional”.
Tal aliança, que para o autor durou de 1939 até 1947, firmada entre os dois países se deu devido a ascensão e queda da Alemanha nazista, pois tanto os EUA quanto a URSS viam em Hitler um perigo maior do que viam um em relação ao outro – daí a expressão utilizada pelo autor: “inimigo em comum”.
O apelo a idéia anti- fascista se intensificava, pois estes tratavam os liberais, os socialistas ou qualquer tipo de regime democrático como inimigos a serem destruídos. Assim todos tinham que se unir, caso não quisessem ser eliminados, um por um.
Hobsbawn destaca ainda como símbolo das disputas ideológicas travadas na década de 1930 a Guerra Civil Espanhola, que suscitou os principais problemas políticos da época e deu forma aos conflitos de idéias opostas que iriam culminar com a Segunda Guerra Mundial. E destaca ainda que o evento antecipou e moldou as forças que iriam destruir o fascismo. O autor aponta ainda os movimentos de resistência europeus, que teve um maior significado político e moral, do que propriamente militar. Esses movimentos pendiam em geral para a esquerda, devido à internacionalidade do comunismo e a convicção que seus partidários tinham em dedicar suas vidas a uma causa. Porém é importante ressaltar que os comunistas não tentaram estabelecer regimes revolucionários, pois as poucas revoluções que aconteceram (Iugoslávia, Albânia e China) foram feitas contra a vontade de Stálin e da URSS.
Uma questão muito importante, que não pode deixar de ser destacada, é a de que tudo que Hobsbawn esclarece nesse capitulo em relação ao “inimigo comum” só pode ser aplicado à Europa, algumas partes do Japão e America Latina, pois para a maior pare da Ásia, África e mundo islâmico, o maior inimigo era o “imperialismo”, ou “colonialismo”.Como as principais potências imperialistas eram os países liberais, as lutas anticolonialistas e antifascistas tendiam a tomar rumos opostos. Assim uma questão importante é levantada por Hobsbawn: Por que a maior parte dos movimentos de libertação se inclinaram para a esquerda e não para os regimes fascistas? O autor responde esta pergunta observando que a maior parte destes movimentos foi iniciada por minorias atípicas da população, não interessadas em preceitos fascistas como o racismo; e por intelectuais que haviam estudado na Europa, e que, portanto, se sentiam mais à vontade no ambiente não racista e anticolonial dos liberais, democratas, socialistas e comunistas. Além disso, a esquerda internacional era a principal fomentadora das idéias e políticas antiimperialistas.
Assim, como o fascismo não conseguiu ir além de seus países de origem e com sua derrocada total, comunistas e capitalistas puderam voltar ao seu estágio anterior, uma vez que não tinham mais um “inimigo em comum”, e voltaram a se enfrentar, dando inicio a um outro conflito, mais ideológico do que militar, conhecido como Guerra Fria.
BIBLIOGRAFIA
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o Breve Século XX (1914-1991). Companhia das Letras: São Paulo, 1994.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Dicas de vídeos
Leni Riefenstahl: http://www.youtube.com/watch?v=LoASZAksU-U
Vídeo sobre o nazismo: http://www.youtube.com/watch?v=of4tkdJcEwo
Discurso de Hitler ( legendado em português ): http://www.youtube.com/watch?v=lAi7UnXp9Aw&feature=related
Propaganda nazista: http://www.youtube.com/watch?v=GVir9JQVi-M&feature=related
Desfile nazista - Segunda guerra mundial: http://www.youtube.com/watch?v=i0QMmreSC4s&feature=related
Discurso de Mussolini: http://www.youtube.com/watch?v=t97ttuUnGtc&feature=related
Vídeo sobre o nazismo: http://www.youtube.com/watch?v=of4tkdJcEwo
Discurso de Hitler ( legendado em português ): http://www.youtube.com/watch?v=lAi7UnXp9Aw&feature=related
Propaganda nazista: http://www.youtube.com/watch?v=GVir9JQVi-M&feature=related
Desfile nazista - Segunda guerra mundial: http://www.youtube.com/watch?v=i0QMmreSC4s&feature=related
Discurso de Mussolini: http://www.youtube.com/watch?v=t97ttuUnGtc&feature=related
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Texto 03 - Cap. 8 de A Anatomia do Fascismo
No capítulo 8 de Anatomia do Fascismo Robert O. Paxton avalia as muitas interpretações do fascismo, como a de vê-lo simplesmente como um instrumento do capitalismo, o que segundo o autor seria um erro, pois reduz o fenômeno no resultado inevitável de alguma crise insuperável da superprodução capitalista. Algumas outras interpretações se juntaram a essa, como a explicação através da psicanálise. Procurava-se entender porque Mussolini era “comum” demais enquanto Hitler representava a “insanidade” com seu narcisismo e sua índole vingativa ao mesmo tempo que era capaz de ser encantador e fazer o povo o adorar. Mas a tentativa de se explicar o fascismo pela psicanálise não foi eficiente, principalmente pela inacessibilidade ao objeto. Outra teoria que também é facilmente contestada é a do freudiano Wilhelm Reich. Segundo ele, a violenta fraternidade masculina característica dos estágios iniciais do fascismo era produto da repressão sexual. Porém, sabe-se que a repressão sexual na Inglaterra era maior do que na Alemanha e na Itália. Com isso, a teoria se torna ineficiente.
Já o sociólogo Talcott Parsons, em 1942, explica o fascismo através do desenraizamento e das tensões provocadas por um desenvolvimento econômico e social desigual. Essa versão é muito próxima da marxista, que trata o fascismo como um sistema e como um produto da História.
Outras correntes de pensamentos vêem o fascismo como uma ditadura desenvolvimentista, estabelecida com o propósito de acelerar o crescimento industrial. Porém, também é possível se contra argumentar essa teoria, pois embora a economia italiana tenha crescido com Mussolini, ela cresceu mais rápido antes de 1914 e depois de 1945.
Apesar da enorme dificuldade de definir exatamente o que foi o fascismo e o que ele representou, o autor busca uma definição precisa do fenômeno. Para ele o fascismo tem que ser definido como uma política marcada pela obsessão com a decadência e humilhação da comunidade, vista como vítima, e pela formação de um partido de base popular, onde nacionalistas engajados repudiam as liberdades democráticas e que passam a pregar a limpeza étnica e a expansão externa por meio de uma violência redentora.
BIBLIOGRAFIA
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
Já o sociólogo Talcott Parsons, em 1942, explica o fascismo através do desenraizamento e das tensões provocadas por um desenvolvimento econômico e social desigual. Essa versão é muito próxima da marxista, que trata o fascismo como um sistema e como um produto da História.
Outras correntes de pensamentos vêem o fascismo como uma ditadura desenvolvimentista, estabelecida com o propósito de acelerar o crescimento industrial. Porém, também é possível se contra argumentar essa teoria, pois embora a economia italiana tenha crescido com Mussolini, ela cresceu mais rápido antes de 1914 e depois de 1945.
Apesar da enorme dificuldade de definir exatamente o que foi o fascismo e o que ele representou, o autor busca uma definição precisa do fenômeno. Para ele o fascismo tem que ser definido como uma política marcada pela obsessão com a decadência e humilhação da comunidade, vista como vítima, e pela formação de um partido de base popular, onde nacionalistas engajados repudiam as liberdades democráticas e que passam a pregar a limpeza étnica e a expansão externa por meio de uma violência redentora.
BIBLIOGRAFIA
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
domingo, 6 de abril de 2008
HOMO SAPIENS 1900 - DIR: PETER COHEN
Construído a partir de arquivos de fotos e filmes, este brilhante documentário tem como tema central a eugenia, ciência que estuda as condições mais propícias à reprodução e melhoramento da raça humana. Ele mostra como a eugenia é usada pra fins negativos e vira instrumento para a limpeza racial e que a idéia de aperfeiçoamento humano iria se tornar o novo credo do século 20.
O documentário mostra o surgimento da eugenia com Francis Galton na Inglaterra. Segundo ele, a evolução do homem é impedida porque as pessoas inferiores procriam mais. Sendo assim, a única saída seria uma das duas alternativas que a eugenia apresenta. A primeira seria a Eugenia Positiva, ou seja, o cruzamento das raças superiores. A segunda, Eugenia Negativa, seria evitar o cruzamento de raças inferiores. Já em 1992, na Suécia, é criado o primeiro instituto oficial de Biologia Racial, sendo que 9 anos depois é aprovada a lei que obrigava a esterilização de indivíduos cuja reprodução era considerada indesejável. Pode-se dizer que este é um dos principais pontos do documentário, mostrando que países “democráticos” como os Estados Unidos e a Suécia também acreditavam na idéia de higiene racial como essencial para o bem estar da sociedade. Ou seja, passando por todas as suas variações em diversos países do mundo, Cohen mostra que a eugenia não foi só uma loucura de Hitler e da Alemanha.
Outro ponto importante a se destacar é a diferença entre o ideal do ser humano adotado pelos alemães do que foi adotado pelos soviéticos. Enquanto os alemães buscavam a perfeição e a beleza do corpo, sua condição e potencial, que iriam construir o super-homem ariano, na União Soviética a obsessão era pelo cérebro e intelecto, estudando as bases genéticas da inteligência. O Instituto do Cérebro em Moscou, principal pilar do movimento eugênico da URSS, buscava desvendar os segredos dos gênios russos e aplicá-los ao homem comum. Assim, para Stalin, estaria dado o primeiro passo na construção do “novo homem socialista”. Daí as poderosas imagens de Lenin morto e de seu cérebro sendo segurado por cientistas.
Impressionantes também são as imagens da Exposição Mundial de Paris, em 1937, que mostra a construção dos pavilhões alemão e soviético, que foram colocados frente a frente. A bandeira com a suástica tremia em frente das estátuas do homem e da mulher que elevavam bem alto os símbolos do comunismo – a foice e o martelo. A estátua alemã expressava a obsessão pela beleza e perfeição física enquanto os russos se expressavam através de um casal de camponeses saudáveis, simples e dispostos ao trabalho.
Mas a cena mais chocante do documentário, sem dúvidas, é oriunda do filme “A cegonha negra”, um velho filme mudo americano em que o médico norte- americano Harry Haiselden interpreta a si mesmo, propondo a limpeza racial e condenando à morte um recém–nascido deformado. Ao assistirmos a cena pensaríamos que se trata de um filme de terror, uma ficção, quando na verdade nada mais é do que uma propaganda pela limpeza racial, feita em 1917. “Há ocasiões em que salvar uma vida é um crime maior do que tirá-la” diz o médico.
Assim, ao entendermos o nascimento da eugenia e os diferentes rumos que ela tomou passamos a compreender melhor os horrores da Alemanha de Hitler, que eliminava todos os que não se adaptavam ao padrão racial desenvolvido por um ideal fascista de homem. A obsessão dos alemães pela limpeza racial culminaria com a criação do Instituto Kaiser Wilhelm, em 1933, onde Fritz Lenz assume a direção do que se formaria a base científica da política racial nazista. A eugenia negativa na Alemanha leva ao horror final. A política racial expurga o “material humano inferior”. 400 mil alemães são esterilizados e 100 mil são mortos antes do projeto de eugenia culminar com a política de exterminação em massa nos campos de concentração.
Homo Sapiens 1900 é obrigatório, pois trata-se de um documento precioso sobre a manipulação biológica usada como arma pra eliminar todos os que não se adaptam ao “padrão social” imposto por um modelo racista de ideal humano.
BIBLIOGRAFIA
SILVA,Francisco C.T. da “Os fascismos” In: REIS FILHO,Daniel Aarão, Século XX. Vol. II: O tempo das crises. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000
PAXTON,Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo,Paz e Terra, 2007. Capítulo 1: p 13-49
O documentário mostra o surgimento da eugenia com Francis Galton na Inglaterra. Segundo ele, a evolução do homem é impedida porque as pessoas inferiores procriam mais. Sendo assim, a única saída seria uma das duas alternativas que a eugenia apresenta. A primeira seria a Eugenia Positiva, ou seja, o cruzamento das raças superiores. A segunda, Eugenia Negativa, seria evitar o cruzamento de raças inferiores. Já em 1992, na Suécia, é criado o primeiro instituto oficial de Biologia Racial, sendo que 9 anos depois é aprovada a lei que obrigava a esterilização de indivíduos cuja reprodução era considerada indesejável. Pode-se dizer que este é um dos principais pontos do documentário, mostrando que países “democráticos” como os Estados Unidos e a Suécia também acreditavam na idéia de higiene racial como essencial para o bem estar da sociedade. Ou seja, passando por todas as suas variações em diversos países do mundo, Cohen mostra que a eugenia não foi só uma loucura de Hitler e da Alemanha.
Outro ponto importante a se destacar é a diferença entre o ideal do ser humano adotado pelos alemães do que foi adotado pelos soviéticos. Enquanto os alemães buscavam a perfeição e a beleza do corpo, sua condição e potencial, que iriam construir o super-homem ariano, na União Soviética a obsessão era pelo cérebro e intelecto, estudando as bases genéticas da inteligência. O Instituto do Cérebro em Moscou, principal pilar do movimento eugênico da URSS, buscava desvendar os segredos dos gênios russos e aplicá-los ao homem comum. Assim, para Stalin, estaria dado o primeiro passo na construção do “novo homem socialista”. Daí as poderosas imagens de Lenin morto e de seu cérebro sendo segurado por cientistas.
Impressionantes também são as imagens da Exposição Mundial de Paris, em 1937, que mostra a construção dos pavilhões alemão e soviético, que foram colocados frente a frente. A bandeira com a suástica tremia em frente das estátuas do homem e da mulher que elevavam bem alto os símbolos do comunismo – a foice e o martelo. A estátua alemã expressava a obsessão pela beleza e perfeição física enquanto os russos se expressavam através de um casal de camponeses saudáveis, simples e dispostos ao trabalho.
Mas a cena mais chocante do documentário, sem dúvidas, é oriunda do filme “A cegonha negra”, um velho filme mudo americano em que o médico norte- americano Harry Haiselden interpreta a si mesmo, propondo a limpeza racial e condenando à morte um recém–nascido deformado. Ao assistirmos a cena pensaríamos que se trata de um filme de terror, uma ficção, quando na verdade nada mais é do que uma propaganda pela limpeza racial, feita em 1917. “Há ocasiões em que salvar uma vida é um crime maior do que tirá-la” diz o médico.
Assim, ao entendermos o nascimento da eugenia e os diferentes rumos que ela tomou passamos a compreender melhor os horrores da Alemanha de Hitler, que eliminava todos os que não se adaptavam ao padrão racial desenvolvido por um ideal fascista de homem. A obsessão dos alemães pela limpeza racial culminaria com a criação do Instituto Kaiser Wilhelm, em 1933, onde Fritz Lenz assume a direção do que se formaria a base científica da política racial nazista. A eugenia negativa na Alemanha leva ao horror final. A política racial expurga o “material humano inferior”. 400 mil alemães são esterilizados e 100 mil são mortos antes do projeto de eugenia culminar com a política de exterminação em massa nos campos de concentração.
Homo Sapiens 1900 é obrigatório, pois trata-se de um documento precioso sobre a manipulação biológica usada como arma pra eliminar todos os que não se adaptam ao “padrão social” imposto por um modelo racista de ideal humano.
BIBLIOGRAFIA
SILVA,Francisco C.T. da “Os fascismos” In: REIS FILHO,Daniel Aarão, Século XX. Vol. II: O tempo das crises. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000
PAXTON,Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo,Paz e Terra, 2007. Capítulo 1: p 13-49
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Texto 02 - “A anatomia do fascismo” de Robert O. Paxton
O objetivo do texto “A anatomia do fascismo” de Robert O. Paxton é propor uma outra maneira de encarar o fascismo, resgatando o seu conceito e explicando a sua complexa trajetória histórica. De acordo com o autor, devemos romper com a idéia de que apenas a imagem do ditador todo-poderoso personaliza o fascismo, pois cria a falsa impressão de que podemos compreendê-lo em sua totalidade examinando o líder, isoladamente. Essa é uma versão conveniente, pois ela oferece um álibi às nações que aprovaram e toleraram os líderes fascistas, pois desvia a atenção das pessoas, dos grupos e das instituições que lhes prestaram auxílio. O autor sugere assim um modelo mais sutil do fascismo, que examine as interações entre o Líder e a Nação, e entre o Partido e a sociedade civil.
O fascismo (que tem origem no “fascio” italiano, um feixe ou maço) recebeu seu nome e deu seus primeiros passos na Itália. Porém, movimentos semelhantes vinham surgindo na Europa do pós-guerra, independentes do fascismo de Mussolini, mas que expressavam a mesma mistura de nacionalismo, anti-capitalismo e violência ativa contra seus inimigos, que eram tanto os burgueses quanto socialistas. O programa fascista, segundo o autor, era “uma curiosa mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma espécie de nacional-socialismo”. O programa invocava por objetivos expansionistas nos Bálcãs e ao redor do Mediterrâneo, ao mesmo tempo que propunha o sufrágio feminino, o voto aos 18 anos, a jornada de trabalho de 8 horas, dentre outras coisas. O movimento de Mussolini ampliava-se ainda para atos violentos, de anti-intelectualismo e desprezo pela sociedade estabelecida, características que eram semelhantes aos três grupos que constituíam a massa de seus primeiros seguidores (veteranos de guerra desmobilizados, sindicalistas pró-guerra e intelectuais futuristas.
Outra característica importante do fascismo para o autor é sua essência anti capitalista e anti burguesa, pois eles atacavam o fascismo com quase a mesma veemência com que atacavam os socialistas. Ele aponta, porém, que quando os fascistas chegaram ao poder eles nada fizeram para cumprir essas ameaças anti capitalistas. Algumas correntes intelectuais (incluindo os marxistas) afirmavam que os fascistas vieram em socorro do capitalismo, dando sustentação, por meio de medidas emergenciais, ao sistema de distribuição da propriedade e de hierarquia social. Ao mesmo tempo em que denunciavam as finanças internacionais respeitavam as propriedades dos produtores nacionais. Para o autor, isso se dava porque o que o fascismo criticava no capitalismo não era sua exploração, mas sim seu materialismo e sua indiferença para com a nação.
O autor aponta ainda que não podemos tratar diferentes regimes como fenômenos separados, chamando o regime de Hitler de nazista, o de Mussolini de fascista e os demais movimentos com outros nomes. O que precisamos é de um termo genérico para o que é um fenômeno geral, e no caso do fascismo, foi a grande inovação do século 20, um movimento popular contra a esquerda e contra o individualismo liberal.
BIBLIOGRAFIA
PAXTON,Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo,Paz e Terra, 2007. Capítulo 1: p 13-49
O fascismo (que tem origem no “fascio” italiano, um feixe ou maço) recebeu seu nome e deu seus primeiros passos na Itália. Porém, movimentos semelhantes vinham surgindo na Europa do pós-guerra, independentes do fascismo de Mussolini, mas que expressavam a mesma mistura de nacionalismo, anti-capitalismo e violência ativa contra seus inimigos, que eram tanto os burgueses quanto socialistas. O programa fascista, segundo o autor, era “uma curiosa mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma espécie de nacional-socialismo”. O programa invocava por objetivos expansionistas nos Bálcãs e ao redor do Mediterrâneo, ao mesmo tempo que propunha o sufrágio feminino, o voto aos 18 anos, a jornada de trabalho de 8 horas, dentre outras coisas. O movimento de Mussolini ampliava-se ainda para atos violentos, de anti-intelectualismo e desprezo pela sociedade estabelecida, características que eram semelhantes aos três grupos que constituíam a massa de seus primeiros seguidores (veteranos de guerra desmobilizados, sindicalistas pró-guerra e intelectuais futuristas.
Outra característica importante do fascismo para o autor é sua essência anti capitalista e anti burguesa, pois eles atacavam o fascismo com quase a mesma veemência com que atacavam os socialistas. Ele aponta, porém, que quando os fascistas chegaram ao poder eles nada fizeram para cumprir essas ameaças anti capitalistas. Algumas correntes intelectuais (incluindo os marxistas) afirmavam que os fascistas vieram em socorro do capitalismo, dando sustentação, por meio de medidas emergenciais, ao sistema de distribuição da propriedade e de hierarquia social. Ao mesmo tempo em que denunciavam as finanças internacionais respeitavam as propriedades dos produtores nacionais. Para o autor, isso se dava porque o que o fascismo criticava no capitalismo não era sua exploração, mas sim seu materialismo e sua indiferença para com a nação.
O autor aponta ainda que não podemos tratar diferentes regimes como fenômenos separados, chamando o regime de Hitler de nazista, o de Mussolini de fascista e os demais movimentos com outros nomes. O que precisamos é de um termo genérico para o que é um fenômeno geral, e no caso do fascismo, foi a grande inovação do século 20, um movimento popular contra a esquerda e contra o individualismo liberal.
BIBLIOGRAFIA
PAXTON,Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo,Paz e Terra, 2007. Capítulo 1: p 13-49
Assinar:
Postagens (Atom)