quarta-feira, 28 de maio de 2008

Texto 08 - "Sol Negro – Cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade"

Em “Sol Negro – Cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade”, o autor Nicholas Goodrick- Clarke argumenta que o conceito de Raça é o imã dos cultos arianos e do nazismo esotérico, o princípio- guia de sua visão de mundo histórica e política e defende que diversos fatores na política ocidental agiram para reintroduzir a Raça como uma categoria legítima de identificação grupal. Ele cita que na década de 1960, nos EUA, grupos de poder negro exigiram o reconhecimento oficial do status de grupo “minoritário” e ação compensatória por parte do Estado, sendo que a institucionalização dessas exigências levou a vastos programas de oportunidades iguais e ação afirmativa em relação a empregos e educação para os negros americanos. Para o autor, os efeitos dessas políticas causaram ressentimento sobre os brancos, pois esses privilégios foram fornecidos baseados no critério de raça, o que gerou o crescimento da extrema direita racista.
O autor diz ainda que associar as causas dos crimes cometidos por negros, assim como seu envolvimento com drogas com o racismo dos brancos tem sido um fator no estímulo da extrema direita racista. Assim, os cultos arianos e o nazismo esotérico afirmam poderosas mitologias para negar o declínio do poder branco no mundo. Ele afirma que o pessimismo cultural de Savitri Devi e de Miguel Serrano justifica-se em uma era degenerada, tomada por “inferiores raciais e sociais”.
Ele ressalta também a questão da imigração nos EUA, mostrando que a imigração legal anual é de cerca de 1 milhão, enquanto a ilegal é de cerca de 2 a 3 milhões, se questionando se os norte-americanos podem assimilar esses imigrantes. Para ele, a primazia dos direitos humanos internacionais sobre noções de soberania nacional também levou a uma erosão progressiva da cidadania, pela qual estrangeiros clandestinos recebem benefícios do bem- estar social, da educação, de subsídios do governo e até mesmo direito ao voto, sendo que essas questões são de profunda preocupação para grupos conservadores nos EUA.
O autor conclui que os desafios do multirracismo nos Estados ocidentais liberais são enormes e afirma que a ação afirmativa e o multiculturalismo estão levando a uma hostilidade ainda mais difusa contra o liberalismo. Assim, os cultos arianos e o nazismo esotérico podem ser documentados como sintomas iniciais de grandes mudanças desestabilizadoras nas democracias ocidentais da atualidade.

BIBLIOGRAFIA

GOODRICK-CLARKE, Nicholas. Sol negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. São Paulo: Madras, 2004, pp. 397-401.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Arquitetura da destruição - Dir: Peter Cohen

A Arquitetura da Destruição de Peter Cohen é um registro impressionante da forma como os nazistas usam as artes para manipular as mentes. O documentário narra a trajetória de Hitler e de alguns de seus mais próximos colaboradores com a arte. Mostra que o nazismo nasceu em oposição ao racionalismo e conhece o desejo do povo e seus maiores sonhos, sonhos esses que somente um artista pode dar forma. Assim, artistas frustados eram frequentes no comando do Terceiro Reich. Muitos tinham se empenhado na carreira artistica, como por exemplo Goebbels que ja havia escrito um romance, poesias e peças. Já Hitler era um pintor frustado – pintava aquarelas em forma de cartões postais – e sonhava em ser arquiteto. Chegou a participar da Escola de Arte de Viena, de onde saiu aos 18 anos. Gostava de temas como a Antigüidade, de sua cidade natal Linz e de Wagner. Ele declarava que quando a guerra terminasse, iria se dedicar às artes.
O compositor Wagner era o grande ídolo de Hitler. Ele representava para o líder nazista o artista criativo e politico, que eram uma só pessoa. Hitler absorveu as propostas de Wagner. Anti- semitismo, culto ao legado nórdico, mito do sangue puro – todos esses fatores deram contorno à visão de Hitler sobre o mundo. Também de Wagner vieram as noções de arte para uma nova civilização.
O documentário destaca ainda a importância da arte na propaganda, que por sua vez teve papel fundamental no desenvolvimento do nazismo em toda a Alemanha. Hitler usou seu supostos “dons” artísticos na política. Ele criou a propoganda a nazista, desde o uniforme até as bandeiras e estandartes. Deu forma ao Nazismo com seus desenhos e instruções. A insígnia do Partido Nazista foi criada por ele em 1923.
Assim, o nacional-socialismo foi concebido como uma obra, uma ação artística com as finalidades de beleza e perfeição, para a edificação da Alemanha. O objetivo era a preservação de uma raça e a eliminação das diferenças, ou seja, a subtração de tudo que pudesse corromper e adulterar o que havia sido definido como completo e limpo. Não seriam aceitas mestiçagens, nenhuma mistura. Nesse sentido, é importante ressaltar como exemplo uma exposição que foi realizada em março de 1935 em Berlim, chamada de “o milagre da vida”. Nela, a figura de um médico emerge como líder da política racial. Na busca do sangue puro, os inimigos são os judeus, os miscigenados e a degeneração. Em uma seção da exposição é mostrada fotos de doentes mentais e indigentes com a frase – “Isto pode ser chamado de vida?”. Hitler costumava declarar que o maior princípio da beleza é a saúde. Daí a importância dos médicos para criar o chamado “novo homem alemão”. Essa classe profissional, mais do que qualquer outra, aderiu à ideologia nazista. 45 % dos médicos pertenciam ao Partido.
Até irromper a guerra Hitler se dedicou à arquitetura da nova Alemanha. Seu sonho arquitetônico era de imensas proporções. Mais de 40 cidades com projetos de construção monumental. A guerra, para Hitler, era vista como uma arte. O documentário nos mostra a visita de Hitler à Paris logo após a ocupação: O Fuher chega de avião durante a madrugada, visita a Ópera, o Arco do Triunfo, alguns prédios imponentes. Volta para a Alemanha no mesmo dia. Assim, logo após o ataque à URSS inspira Hitler numa nova iniciativa: uma organização para a arte da guerra. A ambição de Hitler era sem limites - para ele, Moscou devia ser apagada da memória. Uma enorme represa seria construída no local.
Para dar vida aos seus imensos projetos os nazistas aplicariam o método da escravização do inimigo com uma habitualidade sem igual nos tempos modernos. Só para o projeto de reconstrução de Berlim foi requisitado 30 mil prisioneiros de guerra. E é interessante perceber que, durante toda a guerra, mesmo no período final com a proximidade da derrota, os projetos arquitetônicos do Terceiro Reich continuaram em andamento, pretendendo construir a nova Berlim, capital do mundo.
O documentário termina mostrando que com a morte de Hitler nada restou. O nazismo entra em colapso. Não há mais slogans nem focos de resistência. O nazismo perdera completamente seus adeptos e seus ímpetos. E o que a obra de Peter Cohen faz é deixar claro que a maior ambição da ideologia nazista era o embelezamento do mundo – a sua força motora era a estética. Das mortes de doentes mentais ao exterminio dos judeus não houve um verdadeiro motivo político que justificasse tamanhas atrocidades.

BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

domingo, 18 de maio de 2008

Texto 07 - "A anatomia do fascismo" - cap.07

No sétimo capítulo de seu livro “A anatomia do fascismo”, o autor Robert Paxton começa perguntando se o fascismo ainda é possível, se há a possibilidade de um Quarto Reich estar sendo gestado. Ele aponta que alguns estudiosos importantes afirmam que o período fascista terminou em 1945, entre os quais Ernst Nolte, que entende que embora o fascismo exista em épocas posteriores a 1945, ele foi despojado de qualquer significado real. Para o autor, a repugnância que o movimento fascista gerou após 1945 impediu o renascimento do fascismo clássico, afinal as fotografias dos campos de concentração chocavam a sociedade e a essa altura Mussolini já era motivo de chacota. Além disso, a prosperidade da economia mundial, a globalização, o triunfo do consumismo individual, entre outros fatores, apontavam que o fascismo dificilmente voltaria após 1945, pelo menos não da mesma forma.
Porém, preocupar-se com tal questão é de fato relevante, pois na década de 1990 teve uma serie de acontecimentos que colocaram em duvida o fim do fascismo, como a limpeza étnica nos Bálcãs, a disseminação da violência dos skinheads contra imigrantes na Inglaterra, na Alemanha e na Itália e etc. Assim, ocorreram uma serie de fatores que permitiu manter viva uma grande variedade de temas e de práticas da extrema direita.
Para o autor, o fato de acreditarmos ou não no retorno do fascismo depende do que entendemos por fascismo. Ele argumenta que os elementos definidores do fascismo clássico, como o gosto pela guerra ou a tendência à formação de uma sociedade baseada na exclusão violenta, não tem espaço no complexo contexto político do pós- guerra. Um fascismo “do futuro”, que seria uma reação de emergência a alguma crise ainda não imaginada, não necessariamente deveria ter semelhança perfeita com o fascismo clássico. Como exemplo, ele cita que um novo fascismo teria que demonizar algum inimigo externo ou interno, mas esse inimigo não seria o povo judeu. Um fascismo norte- americano seria religioso, anti- negros e anti- islâmico. Assim, um novo movimento fascista usaria símbolos novos, teria inimigos diferentes e até mesmo daria a si próprio um outro nome, o quê, porém, não o tornaria menos perigoso.
Para melhor entender se o movimento fascista ainda é possível, o autor estrutura o que seria estágios do movimento. O estágio 1, que corresponderia ao estágio da fundação, nos mostra que movimentos de extrema- direita com vínculo com o fascismo continuam ocorrendo de forma generalizada. Já no segundo estágio, quando esses movimentos se tornam enraizados nos sistemas políticos como atores importantes e representantes de interesses significativos, impõe-se testes históricos de um grau muito maior de exigência. Sendo assim, segundo o autor, o estágio 2 foi atingido apenas por movimentos e partidos de direita radicais, que fizeram o máximo para se “normalizar”, transformando-se apenas em partidos de aparência moderada. E nesse sentido, a Europa Ocidental, de 1945 até os dias atuais, é a região que apresenta o mais forte legado fascista, com maior proliferação desses partidos, sendo importante ressaltar que esse neofascismo saudosista não se limitou à Alemanha e à Itália.

BIBLIOGRAFIA

PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007. pp. 283-334.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Texto 06 - "Modernidade e Holocausto"

Em “Modernidade e Holocausto” o sociólogo polonês Zygmunt Bauman demonstra que o Holocausto deve ser compreendido sobretudo em sua ligação profunda com a natureza da modernidade. Conforme o autor, o Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura.
No quarto capítulo de seu livro – “Singularidade e normalidade do Holocausto” – o autor chama atenção para o fato de que mesmo o Holocausto tendo acontecido há quase meio século, mesmo a geração que viveu essa experiência catastrófica diretamente praticamente já desapareceu, ainda assim, os aspectos do Holocausto ainda fazem parte de nossas vidas, não foram eliminados, logo também não o foi a possibilidade do Holocausto. Segundo o autor, é importante lembrarmos que o Holocausto em 1941 não era esperado e um ano após sua realidade deparava-se com a incredulidade geral, as pessoas recusavam-se a acreditar. Assim, mesmo que no presente momento a gente não consiga imaginar um evento dessa natureza, devemos sempre lembrar que em 1941 também era inimaginável, então para não cometermos os mesmos erros do passado – “o inimaginável deve ser imaginado”.
Para o autor há duas razões pelas quais o Holocausto não pode ser reduzido a um assunto acadêmico, a uma contemplação filosófica. A primeira delas é que mesmo o Holocausto tendo mudado o curso da história subseqüente, pouco mudou o curso da história subseqüente de nossa consciência coletiva e auto- percepção, pois causou pouco impacto visível na imagem que fazemos do significado e da tendência histórica da civilização moderna. Já a segunda razão é que podemos suspeitar que as condições que um dia deram origem ao Holocausto não foram radicalmente transformadas, podendo estar ainda entre nós, à espera de uma oportunidade. O autor enfatiza que se havia algo em nossa ordem social que tornou o Holocausto possível em 1941, não podemos ter certeza de que foi eliminado desde então. O Estado moderno pode fazer o que bem entende àqueles sob seu controle, não havendo limite ético- moral que o Estado não possa transceder para fazer o que quiser, porque não há poder mais alto do que o Estado. Daí é importante ressaltar a reflexão que o autor faz entre o Holocausto e a Modernidade, mostrando que genocídios, assassinatos em massa não são uma invenção moderna. O que ocorreu foi que a Modernidade ao prometer, ao dar uma expectativa de melhoria nas relações humanas, acabou que nada alterou em relação as desumanidades, crueldades, praticas pelo homem contra o homem. Mas dizer que o Holocausto é um produto da modernidade é um erro, visto que a história esta cheia de antagonismos entre comunidades e seitas, que por muitas vezes leva ao massacre e ao extermínio de populações e culturas inteiras. Assim, o genocídio acompanha a história da humanidade desde o inicio e existe até hoje ( exemplos não faltam: conflitos na Ruanda, na Bosnia, mais recentemente no Tibet).
Mas ainda que o extermínio em massa não seja característica exclusiva do Holocausto, há aspectos presentes nesse que não encontramos em nenhum caso anterior. Para o autor, são justamente esses aspectos que merecem especial atenção, começando pelo fato de que a civilização moderna teve aqui um papel ativo, e não passivo. Executado à maneira moderna – pois foi planejado, racional, cientifico, eficientemente coordenado – o Holocausto superou todos os seus equivalentes pré- modernos, considerados como primitivos e ineficientes. Outro aspecto notável é que nos casos modernos de genocídio ( mais precisamente nos casos de Hitler e Stalin) nunca havia sido visto tanta gente ser assassinada em tão pouco tempo. Assim, o caráter geral não- violento da civilização moderna é uma ilusão, é parte integrante de sua auto- apologia, de seu mito legitimador. Da mesma maneira que fomos treinados a abominar e detestar outras coisas, a violência foi retirada da nossa vista, mas não da nossa existência, sendo encerrada em territórios segregados e isolados, que em geral não são de interesse para os seres humanos “civilizados”.
O autor aponta ainda o papel da burocracia no Holocausto, que recebeu a tarefa de tornar o país livre de judeus. Para melhor explicar isso, ele cita duas correntes, os “intencionalistas” e “funcionalistas”. Os primeiros defendem que matar os judeus era desde o inicio uma firme decisão de Hitler, à espera das condições oportunas para tal. Já a segunda atribuiu a Hitler a idéia geral de encontrar uma solução para o “problema judeu”, clara apenas na visão de uma Alemanha limpa, mas vaga quanto aos passos a serem tomados para tornar possível essa visão. Conforme o autor, independente de qualquer pensamento, o espaço que se estendeu entre a idéia e sua execução foi preenchido pela ação burocrática. “A burocracia contribuiu para a continuidade do Holocausto não apenas por sua inerente capacidade e suas técnicas, mas também por sua imanente enfermidade e afecções”, conclui o autor.
Para finalizar, podemos dizer que a proposta do livro é a de mostrar que tanto a estrutura básica da sociedade moderna, quanto a maneira de agir de seus membros não mudaram, mesmo sessenta anos após o Holocausto. De nossa parte, consideramos que os horrores do genocídio não se distinguem de outros sofrimentos que a sociedade nos impõe todos os dias, o que identifica o Holocausto não como uma aberração, mas sim como uma decorrência da modernidade. Trata-se de uma questão pertinente e cada vez mais atual e um dos caminhos, ao meu ver, para que possamos impedir que a nossa civilização se torne um grande campo de extermínio é a consciência de que não derrotamos a barbárie.

BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. pp. 106-141.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Texto 05 - "A era dos extremos" de Eric Hobsbawn - cap.5

O maior mérito do livro A era dos extremos de Eric Hobsbawm é transmitir uma forte impressão do tamanho da catástrofe humana que foi o século XX. Catástrofe em relação às atrocidades gigantescas que foram cometidas, sem equiparação possível com qualquer período histórico anterior e em relação à desvalorização do indivíduo, ao qual, durante longos momentos do “breve” século, foram negados todos os direitos humanos e civis, que haviam sido arduamente conquistados durante o “longo” século precedente: 1789-1914.
Assim, o autor inicia o quinto capítulo de seu livro – “contra o inimigo comum” – apontando a aliança entre norte- americanos e soviéticos - o que parece paradoxal, mas foi fundamental para a época – citando como exemplo uma pesquisa realizada em janeiro de 1939, quando 83% dos norte- americanos disseram preferir uma vitoria soviética, caso ocorresse uma guerra entre estes e os alemães. Trata-se de um resultado curioso e até mesmo contraditório, visto que o “breve” século 20 foi dominado por, de um lado, o comunismo anti- capitalista, e de outro, pelo capitalismo anti- comunista. Soma-se a isso o fato de que a tirania de Stalin na URSS, na época em que a pesquisa foi realizada, se encontrava em seu pior estágio, o que torna o seu resultado ainda mais “excepcional”.
Tal aliança, que para o autor durou de 1939 até 1947, firmada entre os dois países se deu devido a ascensão e queda da Alemanha nazista, pois tanto os EUA quanto a URSS viam em Hitler um perigo maior do que viam um em relação ao outro – daí a expressão utilizada pelo autor: “inimigo em comum”.
O apelo a idéia anti- fascista se intensificava, pois estes tratavam os liberais, os socialistas ou qualquer tipo de regime democrático como inimigos a serem destruídos. Assim todos tinham que se unir, caso não quisessem ser eliminados, um por um.
Hobsbawn destaca ainda como símbolo das disputas ideológicas travadas na década de 1930 a Guerra Civil Espanhola, que suscitou os principais problemas políticos da época e deu forma aos conflitos de idéias opostas que iriam culminar com a Segunda Guerra Mundial. E destaca ainda que o evento antecipou e moldou as forças que iriam destruir o fascismo. O autor aponta ainda os movimentos de resistência europeus, que teve um maior significado político e moral, do que propriamente militar. Esses movimentos pendiam em geral para a esquerda, devido à internacionalidade do comunismo e a convicção que seus partidários tinham em dedicar suas vidas a uma causa. Porém é importante ressaltar que os comunistas não tentaram estabelecer regimes revolucionários, pois as poucas revoluções que aconteceram (Iugoslávia, Albânia e China) foram feitas contra a vontade de Stálin e da URSS.
Uma questão muito importante, que não pode deixar de ser destacada, é a de que tudo que Hobsbawn esclarece nesse capitulo em relação ao “inimigo comum” só pode ser aplicado à Europa, algumas partes do Japão e America Latina, pois para a maior pare da Ásia, África e mundo islâmico, o maior inimigo era o “imperialismo”, ou “colonialismo”.Como as principais potências imperialistas eram os países liberais, as lutas anticolonialistas e antifascistas tendiam a tomar rumos opostos. Assim uma questão importante é levantada por Hobsbawn: Por que a maior parte dos movimentos de libertação se inclinaram para a esquerda e não para os regimes fascistas? O autor responde esta pergunta observando que a maior parte destes movimentos foi iniciada por minorias atípicas da população, não interessadas em preceitos fascistas como o racismo; e por intelectuais que haviam estudado na Europa, e que, portanto, se sentiam mais à vontade no ambiente não racista e anticolonial dos liberais, democratas, socialistas e comunistas. Além disso, a esquerda internacional era a principal fomentadora das idéias e políticas antiimperialistas.
Assim, como o fascismo não conseguiu ir além de seus países de origem e com sua derrocada total, comunistas e capitalistas puderam voltar ao seu estágio anterior, uma vez que não tinham mais um “inimigo em comum”, e voltaram a se enfrentar, dando inicio a um outro conflito, mais ideológico do que militar, conhecido como Guerra Fria.

BIBLIOGRAFIA

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o Breve Século XX (1914-1991). Companhia das Letras: São Paulo, 1994.