Em “Neonazismo, negacionismo e extremismo político”, o autor Paulo Vizentini começa destacando a diferença entre neonazismo, extrema direita e extremismo político, discutindo todos esses diferentes aspectos. Ele aponta diversos fatores para o ressurgimento da extrema direita e do neonazismo. Nesse sentido, ele afirma que na segunda metade dos anos 70, diminui a solidariedade com o Terceiro Mundo e vai havendo uma mudança no enfoque de como os europeus tratam as questões dos países periféricos. Esse aspecto também é mesclado pelo surgimento de alguns capitalismos bem sucedidos no Terceiro Mundo. Em particular é o começo do chamado "milagre asiático", onde os países ocidentais começam, lentamente, a ser inundados por mercadorias baratas produzidas na Ásia Oriental, que criam um certo tipo de xenofobia, onde é resgatada a noção de "perigo amarelo". A isso soma-se um outro fator também muito importante, que favorece o renascimento do nazi- fascismo: a estagnação e a regressão demográfica dos países do Hemisfério Norte. Em certa altura dos anos 70, os fluxos migratórios, que desde as grandes navegações eram do Norte para o Sul, inverteram-se e passaram a ser do Sul para o Norte, a partir de uma combinação de dois fatores interrelacionados: um, como foi dito, o problema demográfico em si mesmo; outro, a reorganização da economia mundial, que fazia com que alguns setores econômicos do Primeiro Mundo necessitassem de um tipo de mão-de-obra mais barata e fizesse, efetivamente, um apelo a vinda de trabalhadores estrangeiros (os turcos na Alemanha, magrebinos para a França, indianos para a Inglaterra, etc.), que iam encarregar-se de setores que não tinham a margem de lucratividade suficiente para subsistir. Assim, a idéia de "invasão dos bárbaros" vai se arraigando no espírito dos europeus.
Já nos anos 80 acontece a retomada do liberalismo na economia e da Guerra Fria no plano da política internacional, caracterizando-se como uma época marcada pelo desemprego e por incertezas de toda ordem. Os europeus começam a ver sua noção de progresso, prosperidade e segurança ser perdida. Logo, estas tensões sociais vão encontrar uma válvula de escape na xenofobia e no racismo, que foi seu grande ponto de partida e o seu relançamento. Os estrangeiros passam a significar, nesse sentido, pessoas que iriam tomar seus empregos, que estariam mudando seus modos de vida, introduzindo as drogas, a criminalidade, a decadência. Crescem os pedidos para rever a política de imigração para refugiados políticos, que havia sido uma "generosidade" da Europa até aquele momento, muito motivada pelo passado nazista. Dessa forma, começam a crescer as tensões por todo lado.
Assim, os neonazistas começam a fazer ações, principalmente nos países do Leste Europeu, que saem do regime socialista. A extrema-direita, o nacionalismo, a xenofobia e as idéias neonazistas surgem com vigor em países onde até então não havia, de certa forma, estruturas e formas de convivência capazes de lidar com este fenômeno. Para o autor, os analistas ao analisarem o fenômeno recorrem à uma explicação simplista, culpando o comunismo, pouco contribuindo para a real compreensão do problema. O que houve nestas sociedades foi um colapso absoluto, um mundo que ruiu.
O autor finaliza apontando que os riscos contidos no ressurgimento do nazismo e da extrema-direita são incalculáveis, pois estamos vivendo uma espécie de esgotamento, declínio e em alguns pontos, até colapso de uma ordem que existiu anteriormente. E o que irá substituir isto, ainda não está construído, segundo o autor. “É precisamente neste hiato de pânico e desesperança que surge o medo”, destaca Vizentini.
BIBLIOGRAFIA
VÍZENTINI, Paulo Fagundes. O ressurgimento da extrema direita e do neonazismo: a dimensão histórica e internacional. In.: MILMAN, Luis & VÍZENTINI, Paulo Fagundes (org.). Neonazismo, negacionismo e extremismo político. Porto Alegre: UFRGS, 2000, pp. 17-46.
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