segunda-feira, 7 de abril de 2008

Texto 03 - Cap. 8 de A Anatomia do Fascismo

No capítulo 8 de Anatomia do Fascismo Robert O. Paxton avalia as muitas interpretações do fascismo, como a de vê-lo simplesmente como um instrumento do capitalismo, o que segundo o autor seria um erro, pois reduz o fenômeno no resultado inevitável de alguma crise insuperável da superprodução capitalista. Algumas outras interpretações se juntaram a essa, como a explicação através da psicanálise. Procurava-se entender porque Mussolini era “comum” demais enquanto Hitler representava a “insanidade” com seu narcisismo e sua índole vingativa ao mesmo tempo que era capaz de ser encantador e fazer o povo o adorar. Mas a tentativa de se explicar o fascismo pela psicanálise não foi eficiente, principalmente pela inacessibilidade ao objeto. Outra teoria que também é facilmente contestada é a do freudiano Wilhelm Reich. Segundo ele, a violenta fraternidade masculina característica dos estágios iniciais do fascismo era produto da repressão sexual. Porém, sabe-se que a repressão sexual na Inglaterra era maior do que na Alemanha e na Itália. Com isso, a teoria se torna ineficiente.
Já o sociólogo Talcott Parsons, em 1942, explica o fascismo através do desenraizamento e das tensões provocadas por um desenvolvimento econômico e social desigual. Essa versão é muito próxima da marxista, que trata o fascismo como um sistema e como um produto da História.
Outras correntes de pensamentos vêem o fascismo como uma ditadura desenvolvimentista, estabelecida com o propósito de acelerar o crescimento industrial. Porém, também é possível se contra argumentar essa teoria, pois embora a economia italiana tenha crescido com Mussolini, ela cresceu mais rápido antes de 1914 e depois de 1945.
Apesar da enorme dificuldade de definir exatamente o que foi o fascismo e o que ele representou, o autor busca uma definição precisa do fenômeno. Para ele o fascismo tem que ser definido como uma política marcada pela obsessão com a decadência e humilhação da comunidade, vista como vítima, e pela formação de um partido de base popular, onde nacionalistas engajados repudiam as liberdades democráticas e que passam a pregar a limpeza étnica e a expansão externa por meio de uma violência redentora.

BIBLIOGRAFIA

PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

domingo, 6 de abril de 2008

HOMO SAPIENS 1900 - DIR: PETER COHEN

Construído a partir de arquivos de fotos e filmes, este brilhante documentário tem como tema central a eugenia, ciência que estuda as condições mais propícias à reprodução e melhoramento da raça humana. Ele mostra como a eugenia é usada pra fins negativos e vira instrumento para a limpeza racial e que a idéia de aperfeiçoamento humano iria se tornar o novo credo do século 20.
O documentário mostra o surgimento da eugenia com Francis Galton na Inglaterra. Segundo ele, a evolução do homem é impedida porque as pessoas inferiores procriam mais. Sendo assim, a única saída seria uma das duas alternativas que a eugenia apresenta. A primeira seria a Eugenia Positiva, ou seja, o cruzamento das raças superiores. A segunda, Eugenia Negativa, seria evitar o cruzamento de raças inferiores. Já em 1992, na Suécia, é criado o primeiro instituto oficial de Biologia Racial, sendo que 9 anos depois é aprovada a lei que obrigava a esterilização de indivíduos cuja reprodução era considerada indesejável. Pode-se dizer que este é um dos principais pontos do documentário, mostrando que países “democráticos” como os Estados Unidos e a Suécia também acreditavam na idéia de higiene racial como essencial para o bem estar da sociedade. Ou seja, passando por todas as suas variações em diversos países do mundo, Cohen mostra que a eugenia não foi só uma loucura de Hitler e da Alemanha.
Outro ponto importante a se destacar é a diferença entre o ideal do ser humano adotado pelos alemães do que foi adotado pelos soviéticos. Enquanto os alemães buscavam a perfeição e a beleza do corpo, sua condição e potencial, que iriam construir o super-homem ariano, na União Soviética a obsessão era pelo cérebro e intelecto, estudando as bases genéticas da inteligência. O Instituto do Cérebro em Moscou, principal pilar do movimento eugênico da URSS, buscava desvendar os segredos dos gênios russos e aplicá-los ao homem comum. Assim, para Stalin, estaria dado o primeiro passo na construção do “novo homem socialista”. Daí as poderosas imagens de Lenin morto e de seu cérebro sendo segurado por cientistas.
Impressionantes também são as imagens da Exposição Mundial de Paris, em 1937, que mostra a construção dos pavilhões alemão e soviético, que foram colocados frente a frente. A bandeira com a suástica tremia em frente das estátuas do homem e da mulher que elevavam bem alto os símbolos do comunismo – a foice e o martelo. A estátua alemã expressava a obsessão pela beleza e perfeição física enquanto os russos se expressavam através de um casal de camponeses saudáveis, simples e dispostos ao trabalho.
Mas a cena mais chocante do documentário, sem dúvidas, é oriunda do filme “A cegonha negra”, um velho filme mudo americano em que o médico norte- americano Harry Haiselden interpreta a si mesmo, propondo a limpeza racial e condenando à morte um recém–nascido deformado. Ao assistirmos a cena pensaríamos que se trata de um filme de terror, uma ficção, quando na verdade nada mais é do que uma propaganda pela limpeza racial, feita em 1917. “Há ocasiões em que salvar uma vida é um crime maior do que tirá-la” diz o médico.
Assim, ao entendermos o nascimento da eugenia e os diferentes rumos que ela tomou passamos a compreender melhor os horrores da Alemanha de Hitler, que eliminava todos os que não se adaptavam ao padrão racial desenvolvido por um ideal fascista de homem. A obsessão dos alemães pela limpeza racial culminaria com a criação do Instituto Kaiser Wilhelm, em 1933, onde Fritz Lenz assume a direção do que se formaria a base científica da política racial nazista. A eugenia negativa na Alemanha leva ao horror final. A política racial expurga o “material humano inferior”. 400 mil alemães são esterilizados e 100 mil são mortos antes do projeto de eugenia culminar com a política de exterminação em massa nos campos de concentração.
Homo Sapiens 1900 é obrigatório, pois trata-se de um documento precioso sobre a manipulação biológica usada como arma pra eliminar todos os que não se adaptam ao “padrão social” imposto por um modelo racista de ideal humano.

BIBLIOGRAFIA

SILVA,Francisco C.T. da “Os fascismos” In: REIS FILHO,Daniel Aarão, Século XX. Vol. II: O tempo das crises. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000

PAXTON,Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo,Paz e Terra, 2007. Capítulo 1: p 13-49

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Texto 02 - “A anatomia do fascismo” de Robert O. Paxton

O objetivo do texto “A anatomia do fascismo” de Robert O. Paxton é propor uma outra maneira de encarar o fascismo, resgatando o seu conceito e explicando a sua complexa trajetória histórica. De acordo com o autor, devemos romper com a idéia de que apenas a imagem do ditador todo-poderoso personaliza o fascismo, pois cria a falsa impressão de que podemos compreendê-lo em sua totalidade examinando o líder, isoladamente. Essa é uma versão conveniente, pois ela oferece um álibi às nações que aprovaram e toleraram os líderes fascistas, pois desvia a atenção das pessoas, dos grupos e das instituições que lhes prestaram auxílio. O autor sugere assim um modelo mais sutil do fascismo, que examine as interações entre o Líder e a Nação, e entre o Partido e a sociedade civil.
O fascismo (que tem origem no “fascio” italiano, um feixe ou maço) recebeu seu nome e deu seus primeiros passos na Itália. Porém, movimentos semelhantes vinham surgindo na Europa do pós-guerra, independentes do fascismo de Mussolini, mas que expressavam a mesma mistura de nacionalismo, anti-capitalismo e violência ativa contra seus inimigos, que eram tanto os burgueses quanto socialistas. O programa fascista, segundo o autor, era “uma curiosa mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma espécie de nacional-socialismo”. O programa invocava por objetivos expansionistas nos Bálcãs e ao redor do Mediterrâneo, ao mesmo tempo que propunha o sufrágio feminino, o voto aos 18 anos, a jornada de trabalho de 8 horas, dentre outras coisas. O movimento de Mussolini ampliava-se ainda para atos violentos, de anti-intelectualismo e desprezo pela sociedade estabelecida, características que eram semelhantes aos três grupos que constituíam a massa de seus primeiros seguidores (veteranos de guerra desmobilizados, sindicalistas pró-guerra e intelectuais futuristas.
Outra característica importante do fascismo para o autor é sua essência anti capitalista e anti burguesa, pois eles atacavam o fascismo com quase a mesma veemência com que atacavam os socialistas. Ele aponta, porém, que quando os fascistas chegaram ao poder eles nada fizeram para cumprir essas ameaças anti capitalistas. Algumas correntes intelectuais (incluindo os marxistas) afirmavam que os fascistas vieram em socorro do capitalismo, dando sustentação, por meio de medidas emergenciais, ao sistema de distribuição da propriedade e de hierarquia social. Ao mesmo tempo em que denunciavam as finanças internacionais respeitavam as propriedades dos produtores nacionais. Para o autor, isso se dava porque o que o fascismo criticava no capitalismo não era sua exploração, mas sim seu materialismo e sua indiferença para com a nação.
O autor aponta ainda que não podemos tratar diferentes regimes como fenômenos separados, chamando o regime de Hitler de nazista, o de Mussolini de fascista e os demais movimentos com outros nomes. O que precisamos é de um termo genérico para o que é um fenômeno geral, e no caso do fascismo, foi a grande inovação do século 20, um movimento popular contra a esquerda e contra o individualismo liberal.

BIBLIOGRAFIA

PAXTON,Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo,Paz e Terra, 2007. Capítulo 1: p 13-49