segunda-feira, 12 de maio de 2008

Texto 06 - "Modernidade e Holocausto"

Em “Modernidade e Holocausto” o sociólogo polonês Zygmunt Bauman demonstra que o Holocausto deve ser compreendido sobretudo em sua ligação profunda com a natureza da modernidade. Conforme o autor, o Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura.
No quarto capítulo de seu livro – “Singularidade e normalidade do Holocausto” – o autor chama atenção para o fato de que mesmo o Holocausto tendo acontecido há quase meio século, mesmo a geração que viveu essa experiência catastrófica diretamente praticamente já desapareceu, ainda assim, os aspectos do Holocausto ainda fazem parte de nossas vidas, não foram eliminados, logo também não o foi a possibilidade do Holocausto. Segundo o autor, é importante lembrarmos que o Holocausto em 1941 não era esperado e um ano após sua realidade deparava-se com a incredulidade geral, as pessoas recusavam-se a acreditar. Assim, mesmo que no presente momento a gente não consiga imaginar um evento dessa natureza, devemos sempre lembrar que em 1941 também era inimaginável, então para não cometermos os mesmos erros do passado – “o inimaginável deve ser imaginado”.
Para o autor há duas razões pelas quais o Holocausto não pode ser reduzido a um assunto acadêmico, a uma contemplação filosófica. A primeira delas é que mesmo o Holocausto tendo mudado o curso da história subseqüente, pouco mudou o curso da história subseqüente de nossa consciência coletiva e auto- percepção, pois causou pouco impacto visível na imagem que fazemos do significado e da tendência histórica da civilização moderna. Já a segunda razão é que podemos suspeitar que as condições que um dia deram origem ao Holocausto não foram radicalmente transformadas, podendo estar ainda entre nós, à espera de uma oportunidade. O autor enfatiza que se havia algo em nossa ordem social que tornou o Holocausto possível em 1941, não podemos ter certeza de que foi eliminado desde então. O Estado moderno pode fazer o que bem entende àqueles sob seu controle, não havendo limite ético- moral que o Estado não possa transceder para fazer o que quiser, porque não há poder mais alto do que o Estado. Daí é importante ressaltar a reflexão que o autor faz entre o Holocausto e a Modernidade, mostrando que genocídios, assassinatos em massa não são uma invenção moderna. O que ocorreu foi que a Modernidade ao prometer, ao dar uma expectativa de melhoria nas relações humanas, acabou que nada alterou em relação as desumanidades, crueldades, praticas pelo homem contra o homem. Mas dizer que o Holocausto é um produto da modernidade é um erro, visto que a história esta cheia de antagonismos entre comunidades e seitas, que por muitas vezes leva ao massacre e ao extermínio de populações e culturas inteiras. Assim, o genocídio acompanha a história da humanidade desde o inicio e existe até hoje ( exemplos não faltam: conflitos na Ruanda, na Bosnia, mais recentemente no Tibet).
Mas ainda que o extermínio em massa não seja característica exclusiva do Holocausto, há aspectos presentes nesse que não encontramos em nenhum caso anterior. Para o autor, são justamente esses aspectos que merecem especial atenção, começando pelo fato de que a civilização moderna teve aqui um papel ativo, e não passivo. Executado à maneira moderna – pois foi planejado, racional, cientifico, eficientemente coordenado – o Holocausto superou todos os seus equivalentes pré- modernos, considerados como primitivos e ineficientes. Outro aspecto notável é que nos casos modernos de genocídio ( mais precisamente nos casos de Hitler e Stalin) nunca havia sido visto tanta gente ser assassinada em tão pouco tempo. Assim, o caráter geral não- violento da civilização moderna é uma ilusão, é parte integrante de sua auto- apologia, de seu mito legitimador. Da mesma maneira que fomos treinados a abominar e detestar outras coisas, a violência foi retirada da nossa vista, mas não da nossa existência, sendo encerrada em territórios segregados e isolados, que em geral não são de interesse para os seres humanos “civilizados”.
O autor aponta ainda o papel da burocracia no Holocausto, que recebeu a tarefa de tornar o país livre de judeus. Para melhor explicar isso, ele cita duas correntes, os “intencionalistas” e “funcionalistas”. Os primeiros defendem que matar os judeus era desde o inicio uma firme decisão de Hitler, à espera das condições oportunas para tal. Já a segunda atribuiu a Hitler a idéia geral de encontrar uma solução para o “problema judeu”, clara apenas na visão de uma Alemanha limpa, mas vaga quanto aos passos a serem tomados para tornar possível essa visão. Conforme o autor, independente de qualquer pensamento, o espaço que se estendeu entre a idéia e sua execução foi preenchido pela ação burocrática. “A burocracia contribuiu para a continuidade do Holocausto não apenas por sua inerente capacidade e suas técnicas, mas também por sua imanente enfermidade e afecções”, conclui o autor.
Para finalizar, podemos dizer que a proposta do livro é a de mostrar que tanto a estrutura básica da sociedade moderna, quanto a maneira de agir de seus membros não mudaram, mesmo sessenta anos após o Holocausto. De nossa parte, consideramos que os horrores do genocídio não se distinguem de outros sofrimentos que a sociedade nos impõe todos os dias, o que identifica o Holocausto não como uma aberração, mas sim como uma decorrência da modernidade. Trata-se de uma questão pertinente e cada vez mais atual e um dos caminhos, ao meu ver, para que possamos impedir que a nossa civilização se torne um grande campo de extermínio é a consciência de que não derrotamos a barbárie.

BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. pp. 106-141.

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