terça-feira, 6 de maio de 2008

Texto 05 - "A era dos extremos" de Eric Hobsbawn - cap.5

O maior mérito do livro A era dos extremos de Eric Hobsbawm é transmitir uma forte impressão do tamanho da catástrofe humana que foi o século XX. Catástrofe em relação às atrocidades gigantescas que foram cometidas, sem equiparação possível com qualquer período histórico anterior e em relação à desvalorização do indivíduo, ao qual, durante longos momentos do “breve” século, foram negados todos os direitos humanos e civis, que haviam sido arduamente conquistados durante o “longo” século precedente: 1789-1914.
Assim, o autor inicia o quinto capítulo de seu livro – “contra o inimigo comum” – apontando a aliança entre norte- americanos e soviéticos - o que parece paradoxal, mas foi fundamental para a época – citando como exemplo uma pesquisa realizada em janeiro de 1939, quando 83% dos norte- americanos disseram preferir uma vitoria soviética, caso ocorresse uma guerra entre estes e os alemães. Trata-se de um resultado curioso e até mesmo contraditório, visto que o “breve” século 20 foi dominado por, de um lado, o comunismo anti- capitalista, e de outro, pelo capitalismo anti- comunista. Soma-se a isso o fato de que a tirania de Stalin na URSS, na época em que a pesquisa foi realizada, se encontrava em seu pior estágio, o que torna o seu resultado ainda mais “excepcional”.
Tal aliança, que para o autor durou de 1939 até 1947, firmada entre os dois países se deu devido a ascensão e queda da Alemanha nazista, pois tanto os EUA quanto a URSS viam em Hitler um perigo maior do que viam um em relação ao outro – daí a expressão utilizada pelo autor: “inimigo em comum”.
O apelo a idéia anti- fascista se intensificava, pois estes tratavam os liberais, os socialistas ou qualquer tipo de regime democrático como inimigos a serem destruídos. Assim todos tinham que se unir, caso não quisessem ser eliminados, um por um.
Hobsbawn destaca ainda como símbolo das disputas ideológicas travadas na década de 1930 a Guerra Civil Espanhola, que suscitou os principais problemas políticos da época e deu forma aos conflitos de idéias opostas que iriam culminar com a Segunda Guerra Mundial. E destaca ainda que o evento antecipou e moldou as forças que iriam destruir o fascismo. O autor aponta ainda os movimentos de resistência europeus, que teve um maior significado político e moral, do que propriamente militar. Esses movimentos pendiam em geral para a esquerda, devido à internacionalidade do comunismo e a convicção que seus partidários tinham em dedicar suas vidas a uma causa. Porém é importante ressaltar que os comunistas não tentaram estabelecer regimes revolucionários, pois as poucas revoluções que aconteceram (Iugoslávia, Albânia e China) foram feitas contra a vontade de Stálin e da URSS.
Uma questão muito importante, que não pode deixar de ser destacada, é a de que tudo que Hobsbawn esclarece nesse capitulo em relação ao “inimigo comum” só pode ser aplicado à Europa, algumas partes do Japão e America Latina, pois para a maior pare da Ásia, África e mundo islâmico, o maior inimigo era o “imperialismo”, ou “colonialismo”.Como as principais potências imperialistas eram os países liberais, as lutas anticolonialistas e antifascistas tendiam a tomar rumos opostos. Assim uma questão importante é levantada por Hobsbawn: Por que a maior parte dos movimentos de libertação se inclinaram para a esquerda e não para os regimes fascistas? O autor responde esta pergunta observando que a maior parte destes movimentos foi iniciada por minorias atípicas da população, não interessadas em preceitos fascistas como o racismo; e por intelectuais que haviam estudado na Europa, e que, portanto, se sentiam mais à vontade no ambiente não racista e anticolonial dos liberais, democratas, socialistas e comunistas. Além disso, a esquerda internacional era a principal fomentadora das idéias e políticas antiimperialistas.
Assim, como o fascismo não conseguiu ir além de seus países de origem e com sua derrocada total, comunistas e capitalistas puderam voltar ao seu estágio anterior, uma vez que não tinham mais um “inimigo em comum”, e voltaram a se enfrentar, dando inicio a um outro conflito, mais ideológico do que militar, conhecido como Guerra Fria.

BIBLIOGRAFIA

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o Breve Século XX (1914-1991). Companhia das Letras: São Paulo, 1994.

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