domingo, 6 de abril de 2008

HOMO SAPIENS 1900 - DIR: PETER COHEN

Construído a partir de arquivos de fotos e filmes, este brilhante documentário tem como tema central a eugenia, ciência que estuda as condições mais propícias à reprodução e melhoramento da raça humana. Ele mostra como a eugenia é usada pra fins negativos e vira instrumento para a limpeza racial e que a idéia de aperfeiçoamento humano iria se tornar o novo credo do século 20.
O documentário mostra o surgimento da eugenia com Francis Galton na Inglaterra. Segundo ele, a evolução do homem é impedida porque as pessoas inferiores procriam mais. Sendo assim, a única saída seria uma das duas alternativas que a eugenia apresenta. A primeira seria a Eugenia Positiva, ou seja, o cruzamento das raças superiores. A segunda, Eugenia Negativa, seria evitar o cruzamento de raças inferiores. Já em 1992, na Suécia, é criado o primeiro instituto oficial de Biologia Racial, sendo que 9 anos depois é aprovada a lei que obrigava a esterilização de indivíduos cuja reprodução era considerada indesejável. Pode-se dizer que este é um dos principais pontos do documentário, mostrando que países “democráticos” como os Estados Unidos e a Suécia também acreditavam na idéia de higiene racial como essencial para o bem estar da sociedade. Ou seja, passando por todas as suas variações em diversos países do mundo, Cohen mostra que a eugenia não foi só uma loucura de Hitler e da Alemanha.
Outro ponto importante a se destacar é a diferença entre o ideal do ser humano adotado pelos alemães do que foi adotado pelos soviéticos. Enquanto os alemães buscavam a perfeição e a beleza do corpo, sua condição e potencial, que iriam construir o super-homem ariano, na União Soviética a obsessão era pelo cérebro e intelecto, estudando as bases genéticas da inteligência. O Instituto do Cérebro em Moscou, principal pilar do movimento eugênico da URSS, buscava desvendar os segredos dos gênios russos e aplicá-los ao homem comum. Assim, para Stalin, estaria dado o primeiro passo na construção do “novo homem socialista”. Daí as poderosas imagens de Lenin morto e de seu cérebro sendo segurado por cientistas.
Impressionantes também são as imagens da Exposição Mundial de Paris, em 1937, que mostra a construção dos pavilhões alemão e soviético, que foram colocados frente a frente. A bandeira com a suástica tremia em frente das estátuas do homem e da mulher que elevavam bem alto os símbolos do comunismo – a foice e o martelo. A estátua alemã expressava a obsessão pela beleza e perfeição física enquanto os russos se expressavam através de um casal de camponeses saudáveis, simples e dispostos ao trabalho.
Mas a cena mais chocante do documentário, sem dúvidas, é oriunda do filme “A cegonha negra”, um velho filme mudo americano em que o médico norte- americano Harry Haiselden interpreta a si mesmo, propondo a limpeza racial e condenando à morte um recém–nascido deformado. Ao assistirmos a cena pensaríamos que se trata de um filme de terror, uma ficção, quando na verdade nada mais é do que uma propaganda pela limpeza racial, feita em 1917. “Há ocasiões em que salvar uma vida é um crime maior do que tirá-la” diz o médico.
Assim, ao entendermos o nascimento da eugenia e os diferentes rumos que ela tomou passamos a compreender melhor os horrores da Alemanha de Hitler, que eliminava todos os que não se adaptavam ao padrão racial desenvolvido por um ideal fascista de homem. A obsessão dos alemães pela limpeza racial culminaria com a criação do Instituto Kaiser Wilhelm, em 1933, onde Fritz Lenz assume a direção do que se formaria a base científica da política racial nazista. A eugenia negativa na Alemanha leva ao horror final. A política racial expurga o “material humano inferior”. 400 mil alemães são esterilizados e 100 mil são mortos antes do projeto de eugenia culminar com a política de exterminação em massa nos campos de concentração.
Homo Sapiens 1900 é obrigatório, pois trata-se de um documento precioso sobre a manipulação biológica usada como arma pra eliminar todos os que não se adaptam ao “padrão social” imposto por um modelo racista de ideal humano.

BIBLIOGRAFIA

SILVA,Francisco C.T. da “Os fascismos” In: REIS FILHO,Daniel Aarão, Século XX. Vol. II: O tempo das crises. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000

PAXTON,Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo,Paz e Terra, 2007. Capítulo 1: p 13-49

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