O autor Luis Milman em “Negacionismo: gênese e desenvolvimento do extermínio conceitual” aborda a gênese do trabalho dos negacionistas - por volta do início da década de 50 - e seu posterior desenvolvimento. O pioneiro foi Paul Rassinier do qual gerou outros autores como Robert Faurrison, Ernst Zundel, Arthur Butz, Jurgen Graff e Ahmed Rami. O historiador David Irving também tem sido incluído nesta lista. A maior parte dessa relação de nomes já esteve envolvida em diversos processos, que vão da calunia, racismo, injuria até a falsificação pura e simples de documentos para tentar embasar suas idéias. Em torno desses nomes ocorreu a construção das bases atuais da escola de postura negacionista - ou revisionista. Rassinier é o autor do primeiro livro desta escola; é portanto, um dos personagens chaves da mesma. O autor trata desta figura longamente e até certo ponto, densamente. Todavia não é nossa pretensão essa riqueza de detalhes informacionais. Sobre Faurisson, é válido ressaltar que ele “entra em cena” dez anos depois da morte de Rassinier tornando-se assim, o nome de maior expressão da postura a qual estamos tratando. David Irving, Arthur Butz e Roger Garaudy formam o grupo, juntamente com Faurisson, dos principais protagonistas da corrente mistificatória da qual Milman trata mas que também não vale ser aqui esmiuçada.
Milman afirma que o movimento negacionista e revisionista começa a partir do início dos anos 1950 e está intrinsecamente ligado ao anti-semitismo. Essas idéias de revisão da história bem como a negação do Holocausto passa, necessariamente, pelos adeptos do anti-semitismo, principalmente na Europa e nos EUA. Discutir o negacionismo é, assim, discutir o anti-semitismo. Para o autor, os negadores do Holocausto enquadram-se pela audácia de investirem na supressão de fatos relativamente recentes. Para isso, eles contam com uma metodologia cenográfica e aparentemente elaborada. Assim, Milman afirma que o Revisionismo é uma forma de expressão particularmente assustadora da naturalidade com que convivemos com o relativismo, o verbalismo vago e com uma demagogia pseudocientífica e nos mostra que idéias como estas ainda são recorrentes em nossa sociedade e muito presente em nossas vidas, uma vez que uma das principais características dos revisionistas ou neonazistas é acreditar que os crimes por eles cometidos foram necessários e fundamentais.
BIBLIOGRAFIA
MILMAN, Luis. “Negacionismo: gênese e desenvolvimento do extermínio conceitual.” In.: MILMAN, Luis & VÍZENTINI, Paulo Fagundes (org.). “Neonazismo, negacionismo e extremismo político.” Porto Alegre: UFRGS, 2000, pp. 115-154.
KRAUSE-VILMAR, D. “A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política” In: MILMAN, L.,VIZENTINI P. “Neonazismo, negacionismo e extremismo político”. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2000.
domingo, 22 de junho de 2008
domingo, 15 de junho de 2008
Texto 10. KRAUSE-VILMAR, Díetfrid. A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política.
O autor Díetfrid Krause-Vilmar em “A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política” aponta que a negação pública dos crimes nazistas – posteriormente chamada de Revisionismo, pois seus adeptos pretendiam revisar a história - não visava, de início, negar a matança em massa dos judeus, limitando-se a relativizar as declarações das testemunhas da época. Nas décadas seguintes, os pontos negados evoluíram respectivamente para : o número de pessoas assassinadas, as técnicas usadas no extermínio, documentos e figuras históricas que foram apresentados, os locais dos campos de morte, e a existência das câmaras de gás. De início, as confrontações jurídicas resultantes destas alegações foram bem recebidas pelos revisionistas, devido ao impacto que causavam na opinião pública,entretanto posteriormente passaram a ser evitadas, devido às condenações dos negadores.
Segundo o autor, existem diversos níveis de argumentação daqueles que negam a ocorrência dos extermínios em Auschwitz. Há alguns de refutação simples e fácil ao lado de hipóteses técnicas e químicas complexas.Embora tentem se passar por pesquisadores sérios, o método que utilizam não corresponde aos princípios científicos, gerando algumas objeções metodológicas, de acordo com o autor. A primeira objeção diz respeito ao tratamento tendencioso dado aos testemunhos das vítimas. A segunda é ligada à pretensa cientificidade com a qual a negação é defendida. A primeira vista, tem-se a impressão de pura ciência. Entretanto, visto mais de perto, o detalhismo se torna inverdade. A terceira objeção é feita em relação à descontextualização de documentos e fatos históricos. O contexto histórico-político é sempre excluído de quaisquer documentos e estudos. Já a quarta objeção surge do fato de que os revisionistas focam sua negação nos fatos ocorridos no campo de Auschwitz.
O autor defende ainda que o impacto causado pelos revisionistas é difícil de se avaliar e certamente não pode ser medido. Entretanto, uma coisa fica clara quando nos ocupamos mais de perto desses autores: seus objetivos não são genuinamente histórico- científicos. A linguagem usada pelos revisionistas é altamente marcada pelo ódio e pelo desprezo e repleta de expressões anti-semitas, contrapondo a linguagem sóbria e objetiva que deveria ser usada em trabalhos acadêmicos. Ou seja, uma linguagem altamente desaconselhada para um trabalho dessa importância.
Para finalizar, o autor aponta que mesmo com tantas provas da existência do Holocausto - como por exemplo os complexos de fontes conhecidos sobre os assassinatos cometidos nos campos como Auschwitz, Belzec e Treblinka e o fato de que existem fichas de trabalhadores civis em Auschwitz, documentos internos da SS, relatos de fugitivos dos campos e dados visíveis sobre a imensa capacidade dos crematórios de Birkenau – os negacionistas e revisionistas continuam seus “estudos”. Ele defende que temos a obrigação de refutar tal tolice, caso a mesma venha a obter alguma repercussão junto ao público e que devemos fazê-lo sempre com base em argumentos. Até porque os que negam os crimes em massa cometidos pelo nacional-socialismo, mesmo que sejam poucos, apresentam também “provas”, mesmo que sejam falsas. Então nesse sentido o autor diz que “Nada é mais cruel do que negar a perseguição, a humilhação e o sofrimento de um indivíduo ou de um grupo. Por isso, essa negação supera em crueldade a própria perseguição” (LISPTADT, 1994, p. 48 apud KRAUSE-VILMAR, 2000, p. 3)
BIBLIOGRAFIA
KRAUSE-VILMAR, D. “A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política” In: MILMAN, L.,VIZENTINI P. “Neonazismo, negacionismo e extremismo político”. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2000.
BAUMAN, Zygmunt. “Modernidade e Holocausto” . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. pp. 106-141.
Segundo o autor, existem diversos níveis de argumentação daqueles que negam a ocorrência dos extermínios em Auschwitz. Há alguns de refutação simples e fácil ao lado de hipóteses técnicas e químicas complexas.Embora tentem se passar por pesquisadores sérios, o método que utilizam não corresponde aos princípios científicos, gerando algumas objeções metodológicas, de acordo com o autor. A primeira objeção diz respeito ao tratamento tendencioso dado aos testemunhos das vítimas. A segunda é ligada à pretensa cientificidade com a qual a negação é defendida. A primeira vista, tem-se a impressão de pura ciência. Entretanto, visto mais de perto, o detalhismo se torna inverdade. A terceira objeção é feita em relação à descontextualização de documentos e fatos históricos. O contexto histórico-político é sempre excluído de quaisquer documentos e estudos. Já a quarta objeção surge do fato de que os revisionistas focam sua negação nos fatos ocorridos no campo de Auschwitz.
O autor defende ainda que o impacto causado pelos revisionistas é difícil de se avaliar e certamente não pode ser medido. Entretanto, uma coisa fica clara quando nos ocupamos mais de perto desses autores: seus objetivos não são genuinamente histórico- científicos. A linguagem usada pelos revisionistas é altamente marcada pelo ódio e pelo desprezo e repleta de expressões anti-semitas, contrapondo a linguagem sóbria e objetiva que deveria ser usada em trabalhos acadêmicos. Ou seja, uma linguagem altamente desaconselhada para um trabalho dessa importância.
Para finalizar, o autor aponta que mesmo com tantas provas da existência do Holocausto - como por exemplo os complexos de fontes conhecidos sobre os assassinatos cometidos nos campos como Auschwitz, Belzec e Treblinka e o fato de que existem fichas de trabalhadores civis em Auschwitz, documentos internos da SS, relatos de fugitivos dos campos e dados visíveis sobre a imensa capacidade dos crematórios de Birkenau – os negacionistas e revisionistas continuam seus “estudos”. Ele defende que temos a obrigação de refutar tal tolice, caso a mesma venha a obter alguma repercussão junto ao público e que devemos fazê-lo sempre com base em argumentos. Até porque os que negam os crimes em massa cometidos pelo nacional-socialismo, mesmo que sejam poucos, apresentam também “provas”, mesmo que sejam falsas. Então nesse sentido o autor diz que “Nada é mais cruel do que negar a perseguição, a humilhação e o sofrimento de um indivíduo ou de um grupo. Por isso, essa negação supera em crueldade a própria perseguição” (LISPTADT, 1994, p. 48 apud KRAUSE-VILMAR, 2000, p. 3)
BIBLIOGRAFIA
KRAUSE-VILMAR, D. “A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política” In: MILMAN, L.,VIZENTINI P. “Neonazismo, negacionismo e extremismo político”. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2000.
BAUMAN, Zygmunt. “Modernidade e Holocausto” . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. pp. 106-141.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Dicas de filmes: A outra história americana
Trata- se de um filme espetacular, com direção afiada, um roteiro que sai completamente dos padrões de Hollywood e uma magnífica interpretação de Edward Norton.
O filme conta a história de Derek Vinyard (Norton), filho de um bombeiro, que morava em Venice Beach, um lugar calmo e tranqüilo até então. Porém, quando um incêndio num bairro negro longíncuo, conhecido pelo tráfico de drogas, fez com que Vinyard fosse assassinado em pleno serviço por um traficante negro, a vida de Derek e sua familia muda radicalmente. O fato traumatizante fez com que ele se empenhasse ainda mais nos ideais racistas do pai, e acaba se tornando um skinhead ativista.
Um fanático nazista, Cameron Alexander, orienta Derek, que forma uma gangue de skinheads com o intuito de "limpar" seu bairro. Certo dia um grupo de negros tenta roubar seu carro, e Derek mata dois dos bandidos. Na cadeia, onde fica por três anos, se depara com a idéia dos próprios neo-nazistas do presídio, que dizem que é essencial alguma tolerância e algum tipo de parceria entre as raças em nome da própria sobrevivência.
A situação piora e ele se vê em permanente conflito ao ser agredido pelos seus próprios pares - brancos igualmente violentos e racistas - e ao ver em um negro o único interno a lhe nutrir alguma afeição.
Em meio a tudo isso, Derek se culpa pelo fato de haver atraído para o buraco que ele próprio cavou para o irmão mais novo, Danny (Edward Furlong), um jovem que luta contra seus próprios sentimentos para seguir o exemplo de seu irmão.
O final é trágico, o filme contém cenas de muita violência, mas a sensação pós-créditos é incrivelmente positiva, diante da idéia de que o homem, por mais irrecuperável e corrompido que possa parecer, ainda é capaz de resgatar a dignidade que guarda adormecida ou aprisionada em seu interior.
O filme conta a história de Derek Vinyard (Norton), filho de um bombeiro, que morava em Venice Beach, um lugar calmo e tranqüilo até então. Porém, quando um incêndio num bairro negro longíncuo, conhecido pelo tráfico de drogas, fez com que Vinyard fosse assassinado em pleno serviço por um traficante negro, a vida de Derek e sua familia muda radicalmente. O fato traumatizante fez com que ele se empenhasse ainda mais nos ideais racistas do pai, e acaba se tornando um skinhead ativista.
Um fanático nazista, Cameron Alexander, orienta Derek, que forma uma gangue de skinheads com o intuito de "limpar" seu bairro. Certo dia um grupo de negros tenta roubar seu carro, e Derek mata dois dos bandidos. Na cadeia, onde fica por três anos, se depara com a idéia dos próprios neo-nazistas do presídio, que dizem que é essencial alguma tolerância e algum tipo de parceria entre as raças em nome da própria sobrevivência.
A situação piora e ele se vê em permanente conflito ao ser agredido pelos seus próprios pares - brancos igualmente violentos e racistas - e ao ver em um negro o único interno a lhe nutrir alguma afeição.
Em meio a tudo isso, Derek se culpa pelo fato de haver atraído para o buraco que ele próprio cavou para o irmão mais novo, Danny (Edward Furlong), um jovem que luta contra seus próprios sentimentos para seguir o exemplo de seu irmão.
O final é trágico, o filme contém cenas de muita violência, mas a sensação pós-créditos é incrivelmente positiva, diante da idéia de que o homem, por mais irrecuperável e corrompido que possa parecer, ainda é capaz de resgatar a dignidade que guarda adormecida ou aprisionada em seu interior.
FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Edição integral; tradução de Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007.
"Espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha a ser um grande apoio e um grande conforto para mim."
Anne Frank, 12 de junho de 1942.
É dessa forma que Anne Frank inicia seu famoso diário que escreve enquanto está escondida, na Holanda ocupada. Este diário transmite as angústias e as emoções de uma criança perante o terror que a cerca, sob a forma de cartas a uma amiga imaginária a que chamou de "Kitty". Progressivamente vamos sendo envolvidos na sua angústia e nos problemas de uma vida partilhada no pequeno anexo por oito pessoas. Ela retrata a crueldade e a frieza com que os judeus eram tratados na época, demonstrando uma face repugnante da raça humana, assim como as vivências que todas as adolescentes passam: os seus medos, as suas novas experiências, a vontade de se exprimirem perante ao mundo, a vontade incontrolável de viver e de aproveitar a vida ao máximo...Assim, o diário se tornou um dos relatos mais impressionantes das atrocidades e horrores cometidos contra os judeus durante a segunda guerra mundial e se converteu em um dos livros mais lidos do mundo.
CONHECENDO ANNE FRANK
Antes de começar a analisar especificamente o livro, farei um breve resumo sobre quem foi Anne Frank e sobre sua história. Anne Frank nasceu em 12 de junho de 1929 em Frankfurt, na Alemanha. Quando em 1933 o partido nazista de Hitler chega ao poder, os pais de Anne, Edith e Otto, que eram judeus, percebem o perigo em continuar na Alemanha, onde o sentimento anti- semita era cada vez mais forte, e decidem fugir para a Holanda, no mesmo ano. Porém, em 1940 a Alemanha ocupa o país e em 1942 começam as deportações para os campos de concentração. A família então esconde-se na casa de trás do edifício onde funciona a empresa de Otto Frank sendo este o lugar que Anne escreverá seu importante diário. – “Como esconderijo, a casa de trás é ideal;ainda que seja úmida e esta toda inclinada, estou segura de que em toda Amsterdã, e talvez em toda Holanda, não há outro esconderijo tão confortável como o que temos instalado aqui”, - é assim que Anne Frank descreve o lugar onde eles permanecerão durante 2 anos até serem descobertos, em agosto de 1944, quando serão presos e deportados para o campo de Westerbork. Depois são transportados para Auschwitz e em outubro de 1944 a levam para Bergen- Belsen, juntamente com sua irmã, separando-as dos pais. Em 1945, nove meses após a sua deportação, Anne Frank morre de tifo em Bergen-Belsen. A irmã, Margot, tinha falecido também vítima do tifo e da subnutrição dias antes de Anne. Sua morte aconteceu duas semanas antes de o campo ser libertado. Dos oito habitantes do Anexo, o único sobrevivente após a guerra foi Otto, pai de Anne.
O DIÁRIO
Anne começou a escrever regularmente no seu diário a partir de 14 de junho de 1942. Em princípio, o tema era a Holanda ocupada pelos nazistas, que tornavam a situação dos judeus cada vez mais insuportável. Ela conta como, após maio de 1940, o sofrimento dos judeus se intensificou e cita diversas medidas excludentes que foram adotadas contra eles, como o fato de que tinham de usar, de uma maneira bem visível, uma estrela amarela para os identificar, ou o fato de não poderem andar de bonde, dirigir automóveis, serem obrigados a se recolher as 8 da noite, etc. Em muitas passagens do livro Anne expressa sua angústia com a situação dos judeus na Holanda e no mundo, narrando de forma aflita os momentos em que vê eles sendo levados às dúzias pela Gestapo, sem um mínimo de decência, amontoados em vagões de gado e enviados para Westerbork. Assim, Anne descreveu seu cotidiano com pormenores: a preocupação diária com a possível falta de comida e em certos momentos até mesmo a fome, os absurdos da guerra, o horror de serem descobertos e o entusiasmo com que recebiam notícias vindas do “mundo real”, como no momento em que o Sr. Vaan Daan – um dos outros moradores do esconderijo – diz que os ingleses desembarcaram na Tunísia, Argélia, Casablanca e Oran e que a cidade russa de Stalingrado, há três meses se defendendo, ainda não caiu nas mãos dos alemães. Esses são momentos importantes para Anne, que se enche de otimismo e esperança em relação a guerra. – “Agora estou ficando realmente esperançosa. Finalmente as coisas vão bem, muito bem mesmo! Houve um atentado contra a vida de Hitler, e desta vez não foi ato de judeus comunistas ou capitalistas ingleses; foi um orgulhoso general alemão, e – o principal – ele é conde e bastante jovem. A Divina Providência salvou a vida do Führer, e infelizmente ele conseguiu escapar com apenas alguns arranhões e queimaduras. Alguns generais e oficiais que estavam com ele ficaram feridos ou morreram. O principal culpado foi fuzilado. De qualquer modo, essa é uma prova de que existem muitos oficiais e generais que estão fartos da guerra e gostariam de ver Hitler despencar num abismo sem fundo”, diz Anne em certo momento do livro.
Outra personagem importante do livro, Miep Gies, que foi uma das pessoas que mais ajudou os Frank nesta época, lembra que com freqüência visitava os clandestinos, levando notícias e conforto: "Eles não podiam fazer barulho para não serem descobertos, o que significava não puxar a descarga no banheiro, andar descalço, ficar sentado..." disse Gies, tempos após o fim da guerra e da publicação do diário.
Outra questão muito importante que Anne aborda em todo livro é a relação com sua família e com os outros moradores do esconderijo. Muitas vezes ela se queixa da maneira como a família a trata, pois esta acha que ela sempre é infantil e encrenqueira. Os conflitos com a Sra. Vaan Daan e com o Sr. Dussel – o ultimo morador a chegar ao anexo – também são retratados. Ela também conta em algumas linhas o abrochar de sua vida sexual, onde ela passa a ser moça e as mudanças de sentimento por Peter – o filho do casal Vaan Daan – de quem ela não gostava muito no começo, mas muda de opinião, passando a ver nele uma companhia agradável e estimulante. Assim, Anne fala de todos os seus segredos e sentimentos, como a admiração pelo pai, a indiferença com a mãe, os conflitos constantes com o Sr. Dussel, por este ser seu colega de quarto e tenta expressar o que significa estar presa e não poder sair, não poder olhar pelas janelas, não poder fazer barulho, não poder falar alto, comer sempre as mesmas coisas todos os dias, não ter o que fazer além de, praticamente, estudar e ajudar nos serviços domésticos do anexo - tudo para poupar a vida. Dia após dia, enfrentava solidão, tédio, ansiedade, medo e ainda o pessimismo de alguns escondidos. Contudo, além dos seus temores, a menina também conta os seus maiores desejos e sonhos. Apesar das dificuldades, procurava estar sempre confiante de que tudo daria certo. Sempre esteve orgulhosa de ser judia e acreditava muito que Deus estava protegendo eles do perigo, o tempo todo. E, nos momentos de maior aflição - como aconteceu em uma noite em que o anexo foi invadido por ladrões, a polícia chegou logo depois do ocorrido para revistar o local e, então, o anexo quase foi descoberto -, Anne parecia disposta a encarar o pior. Assim, Anne concentra-se sobre o pequeno espaço em que a sua vida e a de seus companheiros se move e procura não só desabafar a sua revolta de adolescente, de judia expulsa da comunidade dos homens, de vítima de uma guerra impiedosa, mas, também, encontrar as explicações e as interpretações de tudo isto.
CONCLUSÃO
Ao meu ver, o livro serve como uma alerta à humanidade, mostrando-nos os horrores da guerra e atrocidades que não devemos esquecer jamais. Mas por ter sido escrito por uma criança, por vermos a guerra sob um ponto de vista infantil, todos os absurdos causados pela política racista de Hitler acabam ganhando um tom comovente e poético. As vezes parece difícil acreditar que um texto tão íntimo e pessoal, como o diário de uma adolescente, tenha se tornado um dos principais documentos sobre o Holocausto. Assim, Anne Frank revestiu o Holocausto de uma face tangível e real, de uma dimensão humana com a qual é possível identificar- se, apesar da dificuldade em lidar com a realidade e o horror da tragédia.
CONTEXTO HISTÓRICO
O Diário de Anne Frank é escrito durante a segunda guerra mundial, tratando especificamente da perseguição da Alemanha de Hitler aos judeus. A partir de 1930, o movimento nazista de Adolf Hitler cresceu, aproveitando-se do descontentamento popular com as crises econômica e política. O Partido Nacional-Socialista (NSDAP) era antidemocrático, anti-semita e de um nacionalismo exaltado. Nomeado chanceler do Reich em 30 de janeiro de 1933, Hitler, que considerava o cargo apenas um passo para a tomada do poder absoluto, começou imediatamente a montar um sistema ditatorial. Desfez-se rapidamente dos aliados que permitiram sua ascensão, reservando-se plenos poderes. Através de uma lei aprovada pelos partidos burgueses, proibiu todas as agrupações políticas, com exceção do seu NSDAP. A partir de então, qualquer tentativa de resistência era brutalmente sufocada. O regime perseguia impiedosamente não só adversários políticos – a começar por comunistas e social-democratas –, como todas as pessoas que não eram do seu agrado. Milhares foram presas e, sem qualquer processo judicial, internadas em campos de concentração construídos da noite para o dia. Mal tomara o poder, o regime começou a pôr em prática seu programa anti-semita. Passo a passo, os judeus foram despidos de seus direitos individuais e civis, proibidos de exercer a profissão, limitados em seu direito de ir e vir, expulsos de universidades, agredidos, forçados a entregar ou vender empresas e propriedades. Quem podia, tentava fugir para o exterior para escapar das expoliações, injustiças e vexações. A perseguição política e a ausência de liberdade de expressão e informação levaram milhares de pessoas a abandonar o país. E é nesse contexto de horrores, de medo e de perseguições, que Anne Frank escreve seu diário, que se tornou um manifesto para que não esqueçamos essa época tão triste e absurda da história da humanidade.
BIBLIOGRAFIA
FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Edição integral; tradução de Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007.
MÜLLER, Melissa. Anne Frank – Uma biografia. Editora Record, 2000.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914 – 1991. Companhia das Letras, 2001.
Anne Frank, 12 de junho de 1942.
É dessa forma que Anne Frank inicia seu famoso diário que escreve enquanto está escondida, na Holanda ocupada. Este diário transmite as angústias e as emoções de uma criança perante o terror que a cerca, sob a forma de cartas a uma amiga imaginária a que chamou de "Kitty". Progressivamente vamos sendo envolvidos na sua angústia e nos problemas de uma vida partilhada no pequeno anexo por oito pessoas. Ela retrata a crueldade e a frieza com que os judeus eram tratados na época, demonstrando uma face repugnante da raça humana, assim como as vivências que todas as adolescentes passam: os seus medos, as suas novas experiências, a vontade de se exprimirem perante ao mundo, a vontade incontrolável de viver e de aproveitar a vida ao máximo...Assim, o diário se tornou um dos relatos mais impressionantes das atrocidades e horrores cometidos contra os judeus durante a segunda guerra mundial e se converteu em um dos livros mais lidos do mundo.
CONHECENDO ANNE FRANK
Antes de começar a analisar especificamente o livro, farei um breve resumo sobre quem foi Anne Frank e sobre sua história. Anne Frank nasceu em 12 de junho de 1929 em Frankfurt, na Alemanha. Quando em 1933 o partido nazista de Hitler chega ao poder, os pais de Anne, Edith e Otto, que eram judeus, percebem o perigo em continuar na Alemanha, onde o sentimento anti- semita era cada vez mais forte, e decidem fugir para a Holanda, no mesmo ano. Porém, em 1940 a Alemanha ocupa o país e em 1942 começam as deportações para os campos de concentração. A família então esconde-se na casa de trás do edifício onde funciona a empresa de Otto Frank sendo este o lugar que Anne escreverá seu importante diário. – “Como esconderijo, a casa de trás é ideal;ainda que seja úmida e esta toda inclinada, estou segura de que em toda Amsterdã, e talvez em toda Holanda, não há outro esconderijo tão confortável como o que temos instalado aqui”, - é assim que Anne Frank descreve o lugar onde eles permanecerão durante 2 anos até serem descobertos, em agosto de 1944, quando serão presos e deportados para o campo de Westerbork. Depois são transportados para Auschwitz e em outubro de 1944 a levam para Bergen- Belsen, juntamente com sua irmã, separando-as dos pais. Em 1945, nove meses após a sua deportação, Anne Frank morre de tifo em Bergen-Belsen. A irmã, Margot, tinha falecido também vítima do tifo e da subnutrição dias antes de Anne. Sua morte aconteceu duas semanas antes de o campo ser libertado. Dos oito habitantes do Anexo, o único sobrevivente após a guerra foi Otto, pai de Anne.
O DIÁRIO
Anne começou a escrever regularmente no seu diário a partir de 14 de junho de 1942. Em princípio, o tema era a Holanda ocupada pelos nazistas, que tornavam a situação dos judeus cada vez mais insuportável. Ela conta como, após maio de 1940, o sofrimento dos judeus se intensificou e cita diversas medidas excludentes que foram adotadas contra eles, como o fato de que tinham de usar, de uma maneira bem visível, uma estrela amarela para os identificar, ou o fato de não poderem andar de bonde, dirigir automóveis, serem obrigados a se recolher as 8 da noite, etc. Em muitas passagens do livro Anne expressa sua angústia com a situação dos judeus na Holanda e no mundo, narrando de forma aflita os momentos em que vê eles sendo levados às dúzias pela Gestapo, sem um mínimo de decência, amontoados em vagões de gado e enviados para Westerbork. Assim, Anne descreveu seu cotidiano com pormenores: a preocupação diária com a possível falta de comida e em certos momentos até mesmo a fome, os absurdos da guerra, o horror de serem descobertos e o entusiasmo com que recebiam notícias vindas do “mundo real”, como no momento em que o Sr. Vaan Daan – um dos outros moradores do esconderijo – diz que os ingleses desembarcaram na Tunísia, Argélia, Casablanca e Oran e que a cidade russa de Stalingrado, há três meses se defendendo, ainda não caiu nas mãos dos alemães. Esses são momentos importantes para Anne, que se enche de otimismo e esperança em relação a guerra. – “Agora estou ficando realmente esperançosa. Finalmente as coisas vão bem, muito bem mesmo! Houve um atentado contra a vida de Hitler, e desta vez não foi ato de judeus comunistas ou capitalistas ingleses; foi um orgulhoso general alemão, e – o principal – ele é conde e bastante jovem. A Divina Providência salvou a vida do Führer, e infelizmente ele conseguiu escapar com apenas alguns arranhões e queimaduras. Alguns generais e oficiais que estavam com ele ficaram feridos ou morreram. O principal culpado foi fuzilado. De qualquer modo, essa é uma prova de que existem muitos oficiais e generais que estão fartos da guerra e gostariam de ver Hitler despencar num abismo sem fundo”, diz Anne em certo momento do livro.
Outra personagem importante do livro, Miep Gies, que foi uma das pessoas que mais ajudou os Frank nesta época, lembra que com freqüência visitava os clandestinos, levando notícias e conforto: "Eles não podiam fazer barulho para não serem descobertos, o que significava não puxar a descarga no banheiro, andar descalço, ficar sentado..." disse Gies, tempos após o fim da guerra e da publicação do diário.
Outra questão muito importante que Anne aborda em todo livro é a relação com sua família e com os outros moradores do esconderijo. Muitas vezes ela se queixa da maneira como a família a trata, pois esta acha que ela sempre é infantil e encrenqueira. Os conflitos com a Sra. Vaan Daan e com o Sr. Dussel – o ultimo morador a chegar ao anexo – também são retratados. Ela também conta em algumas linhas o abrochar de sua vida sexual, onde ela passa a ser moça e as mudanças de sentimento por Peter – o filho do casal Vaan Daan – de quem ela não gostava muito no começo, mas muda de opinião, passando a ver nele uma companhia agradável e estimulante. Assim, Anne fala de todos os seus segredos e sentimentos, como a admiração pelo pai, a indiferença com a mãe, os conflitos constantes com o Sr. Dussel, por este ser seu colega de quarto e tenta expressar o que significa estar presa e não poder sair, não poder olhar pelas janelas, não poder fazer barulho, não poder falar alto, comer sempre as mesmas coisas todos os dias, não ter o que fazer além de, praticamente, estudar e ajudar nos serviços domésticos do anexo - tudo para poupar a vida. Dia após dia, enfrentava solidão, tédio, ansiedade, medo e ainda o pessimismo de alguns escondidos. Contudo, além dos seus temores, a menina também conta os seus maiores desejos e sonhos. Apesar das dificuldades, procurava estar sempre confiante de que tudo daria certo. Sempre esteve orgulhosa de ser judia e acreditava muito que Deus estava protegendo eles do perigo, o tempo todo. E, nos momentos de maior aflição - como aconteceu em uma noite em que o anexo foi invadido por ladrões, a polícia chegou logo depois do ocorrido para revistar o local e, então, o anexo quase foi descoberto -, Anne parecia disposta a encarar o pior. Assim, Anne concentra-se sobre o pequeno espaço em que a sua vida e a de seus companheiros se move e procura não só desabafar a sua revolta de adolescente, de judia expulsa da comunidade dos homens, de vítima de uma guerra impiedosa, mas, também, encontrar as explicações e as interpretações de tudo isto.
CONCLUSÃO
Ao meu ver, o livro serve como uma alerta à humanidade, mostrando-nos os horrores da guerra e atrocidades que não devemos esquecer jamais. Mas por ter sido escrito por uma criança, por vermos a guerra sob um ponto de vista infantil, todos os absurdos causados pela política racista de Hitler acabam ganhando um tom comovente e poético. As vezes parece difícil acreditar que um texto tão íntimo e pessoal, como o diário de uma adolescente, tenha se tornado um dos principais documentos sobre o Holocausto. Assim, Anne Frank revestiu o Holocausto de uma face tangível e real, de uma dimensão humana com a qual é possível identificar- se, apesar da dificuldade em lidar com a realidade e o horror da tragédia.
CONTEXTO HISTÓRICO
O Diário de Anne Frank é escrito durante a segunda guerra mundial, tratando especificamente da perseguição da Alemanha de Hitler aos judeus. A partir de 1930, o movimento nazista de Adolf Hitler cresceu, aproveitando-se do descontentamento popular com as crises econômica e política. O Partido Nacional-Socialista (NSDAP) era antidemocrático, anti-semita e de um nacionalismo exaltado. Nomeado chanceler do Reich em 30 de janeiro de 1933, Hitler, que considerava o cargo apenas um passo para a tomada do poder absoluto, começou imediatamente a montar um sistema ditatorial. Desfez-se rapidamente dos aliados que permitiram sua ascensão, reservando-se plenos poderes. Através de uma lei aprovada pelos partidos burgueses, proibiu todas as agrupações políticas, com exceção do seu NSDAP. A partir de então, qualquer tentativa de resistência era brutalmente sufocada. O regime perseguia impiedosamente não só adversários políticos – a começar por comunistas e social-democratas –, como todas as pessoas que não eram do seu agrado. Milhares foram presas e, sem qualquer processo judicial, internadas em campos de concentração construídos da noite para o dia. Mal tomara o poder, o regime começou a pôr em prática seu programa anti-semita. Passo a passo, os judeus foram despidos de seus direitos individuais e civis, proibidos de exercer a profissão, limitados em seu direito de ir e vir, expulsos de universidades, agredidos, forçados a entregar ou vender empresas e propriedades. Quem podia, tentava fugir para o exterior para escapar das expoliações, injustiças e vexações. A perseguição política e a ausência de liberdade de expressão e informação levaram milhares de pessoas a abandonar o país. E é nesse contexto de horrores, de medo e de perseguições, que Anne Frank escreve seu diário, que se tornou um manifesto para que não esqueçamos essa época tão triste e absurda da história da humanidade.
BIBLIOGRAFIA
FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Edição integral; tradução de Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007.
MÜLLER, Melissa. Anne Frank – Uma biografia. Editora Record, 2000.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914 – 1991. Companhia das Letras, 2001.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Texto 09 - “Neonazismo, negacionismo e extremismo político” de Paulo Vizentini
Em “Neonazismo, negacionismo e extremismo político”, o autor Paulo Vizentini começa destacando a diferença entre neonazismo, extrema direita e extremismo político, discutindo todos esses diferentes aspectos. Ele aponta diversos fatores para o ressurgimento da extrema direita e do neonazismo. Nesse sentido, ele afirma que na segunda metade dos anos 70, diminui a solidariedade com o Terceiro Mundo e vai havendo uma mudança no enfoque de como os europeus tratam as questões dos países periféricos. Esse aspecto também é mesclado pelo surgimento de alguns capitalismos bem sucedidos no Terceiro Mundo. Em particular é o começo do chamado "milagre asiático", onde os países ocidentais começam, lentamente, a ser inundados por mercadorias baratas produzidas na Ásia Oriental, que criam um certo tipo de xenofobia, onde é resgatada a noção de "perigo amarelo". A isso soma-se um outro fator também muito importante, que favorece o renascimento do nazi- fascismo: a estagnação e a regressão demográfica dos países do Hemisfério Norte. Em certa altura dos anos 70, os fluxos migratórios, que desde as grandes navegações eram do Norte para o Sul, inverteram-se e passaram a ser do Sul para o Norte, a partir de uma combinação de dois fatores interrelacionados: um, como foi dito, o problema demográfico em si mesmo; outro, a reorganização da economia mundial, que fazia com que alguns setores econômicos do Primeiro Mundo necessitassem de um tipo de mão-de-obra mais barata e fizesse, efetivamente, um apelo a vinda de trabalhadores estrangeiros (os turcos na Alemanha, magrebinos para a França, indianos para a Inglaterra, etc.), que iam encarregar-se de setores que não tinham a margem de lucratividade suficiente para subsistir. Assim, a idéia de "invasão dos bárbaros" vai se arraigando no espírito dos europeus.
Já nos anos 80 acontece a retomada do liberalismo na economia e da Guerra Fria no plano da política internacional, caracterizando-se como uma época marcada pelo desemprego e por incertezas de toda ordem. Os europeus começam a ver sua noção de progresso, prosperidade e segurança ser perdida. Logo, estas tensões sociais vão encontrar uma válvula de escape na xenofobia e no racismo, que foi seu grande ponto de partida e o seu relançamento. Os estrangeiros passam a significar, nesse sentido, pessoas que iriam tomar seus empregos, que estariam mudando seus modos de vida, introduzindo as drogas, a criminalidade, a decadência. Crescem os pedidos para rever a política de imigração para refugiados políticos, que havia sido uma "generosidade" da Europa até aquele momento, muito motivada pelo passado nazista. Dessa forma, começam a crescer as tensões por todo lado.
Assim, os neonazistas começam a fazer ações, principalmente nos países do Leste Europeu, que saem do regime socialista. A extrema-direita, o nacionalismo, a xenofobia e as idéias neonazistas surgem com vigor em países onde até então não havia, de certa forma, estruturas e formas de convivência capazes de lidar com este fenômeno. Para o autor, os analistas ao analisarem o fenômeno recorrem à uma explicação simplista, culpando o comunismo, pouco contribuindo para a real compreensão do problema. O que houve nestas sociedades foi um colapso absoluto, um mundo que ruiu.
O autor finaliza apontando que os riscos contidos no ressurgimento do nazismo e da extrema-direita são incalculáveis, pois estamos vivendo uma espécie de esgotamento, declínio e em alguns pontos, até colapso de uma ordem que existiu anteriormente. E o que irá substituir isto, ainda não está construído, segundo o autor. “É precisamente neste hiato de pânico e desesperança que surge o medo”, destaca Vizentini.
BIBLIOGRAFIA
VÍZENTINI, Paulo Fagundes. O ressurgimento da extrema direita e do neonazismo: a dimensão histórica e internacional. In.: MILMAN, Luis & VÍZENTINI, Paulo Fagundes (org.). Neonazismo, negacionismo e extremismo político. Porto Alegre: UFRGS, 2000, pp. 17-46.
Já nos anos 80 acontece a retomada do liberalismo na economia e da Guerra Fria no plano da política internacional, caracterizando-se como uma época marcada pelo desemprego e por incertezas de toda ordem. Os europeus começam a ver sua noção de progresso, prosperidade e segurança ser perdida. Logo, estas tensões sociais vão encontrar uma válvula de escape na xenofobia e no racismo, que foi seu grande ponto de partida e o seu relançamento. Os estrangeiros passam a significar, nesse sentido, pessoas que iriam tomar seus empregos, que estariam mudando seus modos de vida, introduzindo as drogas, a criminalidade, a decadência. Crescem os pedidos para rever a política de imigração para refugiados políticos, que havia sido uma "generosidade" da Europa até aquele momento, muito motivada pelo passado nazista. Dessa forma, começam a crescer as tensões por todo lado.
Assim, os neonazistas começam a fazer ações, principalmente nos países do Leste Europeu, que saem do regime socialista. A extrema-direita, o nacionalismo, a xenofobia e as idéias neonazistas surgem com vigor em países onde até então não havia, de certa forma, estruturas e formas de convivência capazes de lidar com este fenômeno. Para o autor, os analistas ao analisarem o fenômeno recorrem à uma explicação simplista, culpando o comunismo, pouco contribuindo para a real compreensão do problema. O que houve nestas sociedades foi um colapso absoluto, um mundo que ruiu.
O autor finaliza apontando que os riscos contidos no ressurgimento do nazismo e da extrema-direita são incalculáveis, pois estamos vivendo uma espécie de esgotamento, declínio e em alguns pontos, até colapso de uma ordem que existiu anteriormente. E o que irá substituir isto, ainda não está construído, segundo o autor. “É precisamente neste hiato de pânico e desesperança que surge o medo”, destaca Vizentini.
BIBLIOGRAFIA
VÍZENTINI, Paulo Fagundes. O ressurgimento da extrema direita e do neonazismo: a dimensão histórica e internacional. In.: MILMAN, Luis & VÍZENTINI, Paulo Fagundes (org.). Neonazismo, negacionismo e extremismo político. Porto Alegre: UFRGS, 2000, pp. 17-46.
"O Triunfo da Vontade" de Leni Riefenstahl
Em “O triunfo da vontade”, Leni Riefenstahl filma as colossais e barulhentas concentrações de massa organizadas pelo Partido Nazista. A cineasta utiliza exaustivamente imagens do que é considerado espetacular, extraordinário, harmônico e feliz, o que contribui para a divulgação do nazismo, pois mais do que uma propaganda, a obra transforma lugares cotidianos, pessoas comuns e grandes construções arquitetônicas em personagens coadjuvantes do grande protagonista das telas – Hitler.
A questão é que o documentário de Leni Riefenstahl sobre o 6º Congresso do Partido Nacional Socialista alemão, realizado em 1934, em Nuremberg, sob a liderança de Adolf Hitler, que mostra o desfile monumental das tropas nazistas, os discursos inflamados do Führer e de seus oficiais e a crença absoluta na vitória, dão a idéia de um regime inabalável, instalado para durar mil anos. Atrás de O Triunfo da Vontade está toda uma Alemanha unida, unânime, apoiando o Führer. Hitler é ali retratado como um ídolo, em meio a elementos messiânicos e heróicos. A cidade inteira de Nuremberg é decorada com elementos nazistas, acompanhados por imagens que mostram um povo idólatra. Tudo é grande, colossal, sempre atribuído à figura de Hitler. Presenciamos ali uma das maiores expressões da cultura de massa nascente.
Lení Riefenstahl mostra sequências de discursos de personalidades do Exército alemão que proferem palavras instigantes para incentivar o povo a se engajar na luta por uma nação melhor e para que juntos, transformassem a Alemanha no melhor país do mundo. Em forma de estímulos aparecem dizeres com o objetivo de aumentar o moral do país, ou seja de seu povo, lembrando a todos que possuíam o sangue puro e forte. Um dos momentos mais intensos do filme se dá no ato em que Hitler diz aos jovens que eles eram sangue de seu sangue e que juntos formavam uma só vontade. Isto certamente inseriu estímulos nos ouvintes, pois Hitler era muito admirado por eles. Ele mais do que um líder dos homens, transforma-se em mais um deles, numa sinergia absurdamente bem construída pelas lentes da diretora.
Sendo assim, Triunfo da Vontade é um filme obrigatório por várias razões. Primeiro, por ser uma fonte histórica que nos mostra a máquina nazista em seu apogeu. Também porque nos ajuda a entender até onde se pode ir com a propaganda política. Com ele, conhecemos melhor a essência do totalitarismo e podemos refletir sobre as relações entre arte, ideologia e poder. Por fim, trata-se de uma experiência estética arrojada do ponto de vista formal que influenciou os rumos do cinema documental. É um filme contraditório por tudo que o nazismo representa, mas que deve ser visto.
Para finalizar é importante destacar que, apesar de todas as discussões sobre o fato dela ter sido ou não nazista, se ela acreditava nos ideais do nacional socialismo ou se ela era apenas uma profissional contratada para fazer seu trabalho não podem interferir nas análises sobre a genialidade de sua obra. Foi ela que criou um novo jeito de olhar para o homem público, para o corpo humano e para uma cultura e ainda usou com maestria a linguagem cinematográfica de uma forma única, em um tempo em que não existiam muitos recursos digitais ou de pós-produção como hoje. Assim, seu legado permanece até os dias atuais, e está presente nas tomadas, nos ângulos, no roteiro, na forma em que as pessoas foram educadas para olhar e perceber o mundo através das imagens e sons do cinema. Mas infelizmente, ela só teve a oportunidade de manifestar sua capacidade e arte num contexto histórico extremamente complicado.
BIBLIOGRAFIA
SILVA, Francisco C. T. da, ”Os Fascismos” In ___ FILHO, Daniel Aarão Reis (org.).BERMAN, Marshall “Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade”. (páginas: 24 a 49).
A questão é que o documentário de Leni Riefenstahl sobre o 6º Congresso do Partido Nacional Socialista alemão, realizado em 1934, em Nuremberg, sob a liderança de Adolf Hitler, que mostra o desfile monumental das tropas nazistas, os discursos inflamados do Führer e de seus oficiais e a crença absoluta na vitória, dão a idéia de um regime inabalável, instalado para durar mil anos. Atrás de O Triunfo da Vontade está toda uma Alemanha unida, unânime, apoiando o Führer. Hitler é ali retratado como um ídolo, em meio a elementos messiânicos e heróicos. A cidade inteira de Nuremberg é decorada com elementos nazistas, acompanhados por imagens que mostram um povo idólatra. Tudo é grande, colossal, sempre atribuído à figura de Hitler. Presenciamos ali uma das maiores expressões da cultura de massa nascente.
Lení Riefenstahl mostra sequências de discursos de personalidades do Exército alemão que proferem palavras instigantes para incentivar o povo a se engajar na luta por uma nação melhor e para que juntos, transformassem a Alemanha no melhor país do mundo. Em forma de estímulos aparecem dizeres com o objetivo de aumentar o moral do país, ou seja de seu povo, lembrando a todos que possuíam o sangue puro e forte. Um dos momentos mais intensos do filme se dá no ato em que Hitler diz aos jovens que eles eram sangue de seu sangue e que juntos formavam uma só vontade. Isto certamente inseriu estímulos nos ouvintes, pois Hitler era muito admirado por eles. Ele mais do que um líder dos homens, transforma-se em mais um deles, numa sinergia absurdamente bem construída pelas lentes da diretora.
Sendo assim, Triunfo da Vontade é um filme obrigatório por várias razões. Primeiro, por ser uma fonte histórica que nos mostra a máquina nazista em seu apogeu. Também porque nos ajuda a entender até onde se pode ir com a propaganda política. Com ele, conhecemos melhor a essência do totalitarismo e podemos refletir sobre as relações entre arte, ideologia e poder. Por fim, trata-se de uma experiência estética arrojada do ponto de vista formal que influenciou os rumos do cinema documental. É um filme contraditório por tudo que o nazismo representa, mas que deve ser visto.
Para finalizar é importante destacar que, apesar de todas as discussões sobre o fato dela ter sido ou não nazista, se ela acreditava nos ideais do nacional socialismo ou se ela era apenas uma profissional contratada para fazer seu trabalho não podem interferir nas análises sobre a genialidade de sua obra. Foi ela que criou um novo jeito de olhar para o homem público, para o corpo humano e para uma cultura e ainda usou com maestria a linguagem cinematográfica de uma forma única, em um tempo em que não existiam muitos recursos digitais ou de pós-produção como hoje. Assim, seu legado permanece até os dias atuais, e está presente nas tomadas, nos ângulos, no roteiro, na forma em que as pessoas foram educadas para olhar e perceber o mundo através das imagens e sons do cinema. Mas infelizmente, ela só teve a oportunidade de manifestar sua capacidade e arte num contexto histórico extremamente complicado.
BIBLIOGRAFIA
SILVA, Francisco C. T. da, ”Os Fascismos” In ___ FILHO, Daniel Aarão Reis (org.).BERMAN, Marshall “Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade”. (páginas: 24 a 49).
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Texto 08 - "Sol Negro – Cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade"
Em “Sol Negro – Cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade”, o autor Nicholas Goodrick- Clarke argumenta que o conceito de Raça é o imã dos cultos arianos e do nazismo esotérico, o princípio- guia de sua visão de mundo histórica e política e defende que diversos fatores na política ocidental agiram para reintroduzir a Raça como uma categoria legítima de identificação grupal. Ele cita que na década de 1960, nos EUA, grupos de poder negro exigiram o reconhecimento oficial do status de grupo “minoritário” e ação compensatória por parte do Estado, sendo que a institucionalização dessas exigências levou a vastos programas de oportunidades iguais e ação afirmativa em relação a empregos e educação para os negros americanos. Para o autor, os efeitos dessas políticas causaram ressentimento sobre os brancos, pois esses privilégios foram fornecidos baseados no critério de raça, o que gerou o crescimento da extrema direita racista.
O autor diz ainda que associar as causas dos crimes cometidos por negros, assim como seu envolvimento com drogas com o racismo dos brancos tem sido um fator no estímulo da extrema direita racista. Assim, os cultos arianos e o nazismo esotérico afirmam poderosas mitologias para negar o declínio do poder branco no mundo. Ele afirma que o pessimismo cultural de Savitri Devi e de Miguel Serrano justifica-se em uma era degenerada, tomada por “inferiores raciais e sociais”.
Ele ressalta também a questão da imigração nos EUA, mostrando que a imigração legal anual é de cerca de 1 milhão, enquanto a ilegal é de cerca de 2 a 3 milhões, se questionando se os norte-americanos podem assimilar esses imigrantes. Para ele, a primazia dos direitos humanos internacionais sobre noções de soberania nacional também levou a uma erosão progressiva da cidadania, pela qual estrangeiros clandestinos recebem benefícios do bem- estar social, da educação, de subsídios do governo e até mesmo direito ao voto, sendo que essas questões são de profunda preocupação para grupos conservadores nos EUA.
O autor conclui que os desafios do multirracismo nos Estados ocidentais liberais são enormes e afirma que a ação afirmativa e o multiculturalismo estão levando a uma hostilidade ainda mais difusa contra o liberalismo. Assim, os cultos arianos e o nazismo esotérico podem ser documentados como sintomas iniciais de grandes mudanças desestabilizadoras nas democracias ocidentais da atualidade.
BIBLIOGRAFIA
GOODRICK-CLARKE, Nicholas. Sol negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. São Paulo: Madras, 2004, pp. 397-401.
O autor diz ainda que associar as causas dos crimes cometidos por negros, assim como seu envolvimento com drogas com o racismo dos brancos tem sido um fator no estímulo da extrema direita racista. Assim, os cultos arianos e o nazismo esotérico afirmam poderosas mitologias para negar o declínio do poder branco no mundo. Ele afirma que o pessimismo cultural de Savitri Devi e de Miguel Serrano justifica-se em uma era degenerada, tomada por “inferiores raciais e sociais”.
Ele ressalta também a questão da imigração nos EUA, mostrando que a imigração legal anual é de cerca de 1 milhão, enquanto a ilegal é de cerca de 2 a 3 milhões, se questionando se os norte-americanos podem assimilar esses imigrantes. Para ele, a primazia dos direitos humanos internacionais sobre noções de soberania nacional também levou a uma erosão progressiva da cidadania, pela qual estrangeiros clandestinos recebem benefícios do bem- estar social, da educação, de subsídios do governo e até mesmo direito ao voto, sendo que essas questões são de profunda preocupação para grupos conservadores nos EUA.
O autor conclui que os desafios do multirracismo nos Estados ocidentais liberais são enormes e afirma que a ação afirmativa e o multiculturalismo estão levando a uma hostilidade ainda mais difusa contra o liberalismo. Assim, os cultos arianos e o nazismo esotérico podem ser documentados como sintomas iniciais de grandes mudanças desestabilizadoras nas democracias ocidentais da atualidade.
BIBLIOGRAFIA
GOODRICK-CLARKE, Nicholas. Sol negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. São Paulo: Madras, 2004, pp. 397-401.
Assinar:
Postagens (Atom)