segunda-feira, 19 de maio de 2008

Arquitetura da destruição - Dir: Peter Cohen

A Arquitetura da Destruição de Peter Cohen é um registro impressionante da forma como os nazistas usam as artes para manipular as mentes. O documentário narra a trajetória de Hitler e de alguns de seus mais próximos colaboradores com a arte. Mostra que o nazismo nasceu em oposição ao racionalismo e conhece o desejo do povo e seus maiores sonhos, sonhos esses que somente um artista pode dar forma. Assim, artistas frustados eram frequentes no comando do Terceiro Reich. Muitos tinham se empenhado na carreira artistica, como por exemplo Goebbels que ja havia escrito um romance, poesias e peças. Já Hitler era um pintor frustado – pintava aquarelas em forma de cartões postais – e sonhava em ser arquiteto. Chegou a participar da Escola de Arte de Viena, de onde saiu aos 18 anos. Gostava de temas como a Antigüidade, de sua cidade natal Linz e de Wagner. Ele declarava que quando a guerra terminasse, iria se dedicar às artes.
O compositor Wagner era o grande ídolo de Hitler. Ele representava para o líder nazista o artista criativo e politico, que eram uma só pessoa. Hitler absorveu as propostas de Wagner. Anti- semitismo, culto ao legado nórdico, mito do sangue puro – todos esses fatores deram contorno à visão de Hitler sobre o mundo. Também de Wagner vieram as noções de arte para uma nova civilização.
O documentário destaca ainda a importância da arte na propaganda, que por sua vez teve papel fundamental no desenvolvimento do nazismo em toda a Alemanha. Hitler usou seu supostos “dons” artísticos na política. Ele criou a propoganda a nazista, desde o uniforme até as bandeiras e estandartes. Deu forma ao Nazismo com seus desenhos e instruções. A insígnia do Partido Nazista foi criada por ele em 1923.
Assim, o nacional-socialismo foi concebido como uma obra, uma ação artística com as finalidades de beleza e perfeição, para a edificação da Alemanha. O objetivo era a preservação de uma raça e a eliminação das diferenças, ou seja, a subtração de tudo que pudesse corromper e adulterar o que havia sido definido como completo e limpo. Não seriam aceitas mestiçagens, nenhuma mistura. Nesse sentido, é importante ressaltar como exemplo uma exposição que foi realizada em março de 1935 em Berlim, chamada de “o milagre da vida”. Nela, a figura de um médico emerge como líder da política racial. Na busca do sangue puro, os inimigos são os judeus, os miscigenados e a degeneração. Em uma seção da exposição é mostrada fotos de doentes mentais e indigentes com a frase – “Isto pode ser chamado de vida?”. Hitler costumava declarar que o maior princípio da beleza é a saúde. Daí a importância dos médicos para criar o chamado “novo homem alemão”. Essa classe profissional, mais do que qualquer outra, aderiu à ideologia nazista. 45 % dos médicos pertenciam ao Partido.
Até irromper a guerra Hitler se dedicou à arquitetura da nova Alemanha. Seu sonho arquitetônico era de imensas proporções. Mais de 40 cidades com projetos de construção monumental. A guerra, para Hitler, era vista como uma arte. O documentário nos mostra a visita de Hitler à Paris logo após a ocupação: O Fuher chega de avião durante a madrugada, visita a Ópera, o Arco do Triunfo, alguns prédios imponentes. Volta para a Alemanha no mesmo dia. Assim, logo após o ataque à URSS inspira Hitler numa nova iniciativa: uma organização para a arte da guerra. A ambição de Hitler era sem limites - para ele, Moscou devia ser apagada da memória. Uma enorme represa seria construída no local.
Para dar vida aos seus imensos projetos os nazistas aplicariam o método da escravização do inimigo com uma habitualidade sem igual nos tempos modernos. Só para o projeto de reconstrução de Berlim foi requisitado 30 mil prisioneiros de guerra. E é interessante perceber que, durante toda a guerra, mesmo no período final com a proximidade da derrota, os projetos arquitetônicos do Terceiro Reich continuaram em andamento, pretendendo construir a nova Berlim, capital do mundo.
O documentário termina mostrando que com a morte de Hitler nada restou. O nazismo entra em colapso. Não há mais slogans nem focos de resistência. O nazismo perdera completamente seus adeptos e seus ímpetos. E o que a obra de Peter Cohen faz é deixar claro que a maior ambição da ideologia nazista era o embelezamento do mundo – a sua força motora era a estética. Das mortes de doentes mentais ao exterminio dos judeus não houve um verdadeiro motivo político que justificasse tamanhas atrocidades.

BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

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